8 de janeiro de 2024

Por que algumas plantas de café têm flores rosadas?

Compartilhar:

Para milhões de agricultores em todo o mundo, o surgimento de flores perfumadas nas plantas de café marca uma das etapas mais importantes do ciclo de produção. O momento da florada varia entre os países produtores, mas é inevitavelmente um indicador-chave da produtividade potencial para a próxima temporada. A maioria de nós está familiarizada com as flores brancas com aroma de jasmim. Em alguns casos raros, no entanto, as plantas de café produzem flores rosadas. 

Há uma série de razões para essa diferença impressionante, mas quais são elas? Para descobrir, conversei com Oliveiro Guerreiro Filho, especialista em genética e melhoramento de plantas do Instituto Agronômico de Campinas, Juan Diego de la Cerva, proprietário da Finca El Socorro, e Tommaso Bongini, torrador-chefe da Gearbox Coffee Roasters.

Você também pode gostar do nosso artigo que explora por que as plantas de café florescem e o que isso significa para os produtores.

flores de café

A diversidade genética das flores do café

“Como regra geral, as flores de café são brancas”, diz Oliveiro. “Existem algumas variações genéticas, incluindo o número de pétalas e estames, bem como a forma do tubo da corola.” Às vezes, no entanto, certas espécies e variedades de café têm flores rosadas. Oliveiro diz que, embora isso seja relativamente incomum, ocorre por duas razões principais:

  • o resultado de variações genéticas naturais inerentes. isto é especialmente verdadeiro para certas espécies e variedades, incluindo coffea racemosa e aramosa;
  • o produto de uma mutação genética espontânea conhecida como “purpurascens”.

“Com plantas de café afligidas por purpurascens, as folhas jovens e adultas – bem como novos caules e estípulas – são arroxeadas”, explica Oliveiro. Comparativamente, quando as plantas de café reproduzem consistentemente as características de purpurascens de uma geração para a outra, muitos produtores as classificam e as tratam como variedades separadas. Os botânicos, por sua vez, os classificam como cultivares. Isso ocorre porque eles foram intencionalmente propagados para preservar suas características mais exclusivas.

“As flores de café purpurascens são rosadas porque sua expressão gênica afeta a cor de toda a planta e não apenas as flores, em oposição à composição genética natural das variedades de café que as faz produzir flores rosadas”, diz Oliveiro. “Para este último, apenas as flores são rosa – não as folhas, caules e estípulas.”

Borboleta amarela sobre ramo florido de um pé de café

O que causa a mutação purpurascens?

Oliveiro explica como a mutação pode ocorrer em certas espécies de Coffea – incluindo arábica, robusta (ou canephora), liberica e racemosa. “Um gene pode ter vários alelos”, ele diz. O gene é uma parte do DNA ou RNA que controla uma determinada característica, como a cor rosa das flores, enquanto o alelo é a variação específica do gene, que determinará como essa característica será expressa.

“Portanto, o fenótipo purpurascens é uma mutação genética na sequência de DNA cromossômico das plantas de café”, acrescenta. Embora isso não impeça a formação normal do tecido foliar, ele pode ser transmitido às gerações futuras – o que significa que é possível que mais plantas produzam flores rosadas.

Ao longo de seus estudos, Oliveiro observou que as plantas de café com a mutação purpurascens têm rendimentos mais baixos, mas são tão suscetíveis a pragas e doenças quanto às plantas de café não afetadas.

Quais espécies ou variedades produzem normalmente flores rosadas?

Ao longo dos anos, produtores e pesquisadores relataram inúmeros casos de plantas de café produzindo flores rosadas. Oliveiro acrescenta que, em algumas ex-colônias inglesas, essas plantas são conhecidas como “café laranja”.

Além disso, na Indonésia, essas plantas são chamadas de Koppi wengue, enquanto no Brasil, os agricultores normalmente se referem a elas como “café roxo” ou “café carangola”. O primeiro café com mutação purpurascens cientificamente registrado foi descoberto em Java, Indonésia, no início de 1900, que foi identificado como uma mutação de Typica.

Café Aramosa

A variedade Aramosa é um híbrido natural das espécies arábica e racemosa e normalmente tem um baixo teor de cafeína. Originária de Moçambique, a Coffea racemosa é uma das espécies mais antigas e foi introduzida pela primeira vez aos produtores no Brasil em 1954. As plantas de Aramosa são bastante robustas e resistentes, mesmo a condições climáticas mais severas. Quando maduros, os frutos são vermelho-arroxeados, enquanto as flores são rosa suave.

Variedade Finca El Socorro “purpuracea”

Quando a mãe é originária de uma planta arábica, é mais fácil cruzar variedades purpurascens espontâneas. No entanto, os genes que determinam a cor das flores são recessivos – o que significa que o gene dominante se expressará mais. Um exemplo é a Purpuracea – uma variedade cultivada por Juan Diego de la Cerva, produtor guatemalteco e proprietário da Finca El Socorro.

Juan Diego explica que, em 2009, algumas de suas mudas de Maracaturra tinham folhas roxas, então ele e sua equipe decidiram plantá-las em um lote separado. “Depois de um tempo, percebemos que a morfologia deles era muito diferente, com rendimentos mais baixos em comparação com a mãe Maracaturra”, conta. 

Durante uma degustação inicial, Juan Diego diz que o perfil da xícara foi excelente – e até recebeu consistentemente mais de 90 pontos em várias degustações. Ele então decidiu cultivar a variedade Purpuracea em escala comercial usando técnicas de enxertia de porta-enxertos.

Em 2007, 2011 e 2020, a Purpuracea da Finca El Socorro venceu a competição Cup of Excellence Guatemala – um claro sinal de qualidade. “No momento, não pretendemos divulgar a composição genética dessas plantas”, diz Juan Diego. “Isso é algo único que queremos preservar como exclusivo da nossa fazenda.”

Borboleta sobre ramos de flores rosadas de um cafeeiro

Qual é o sabor do café purpuracea?

Tommaso também é torrador-chefe da Gearbox Coffee Roasters em Florença, Itália. A empresa compra a Purpuracea de Juan Diego desde 2019. “Compramos o café Purpuracea totalmente lavado, que tem uma acidez tremenda e persistente, bom corpo e complexidade”, explica ele. 

Depois disso, Tommaso pediu a Juan Diego que usasse métodos de processamento naturais. “O resultado foi muito além do esperado: um corpo mais aprimorado do que o café lavado e uma grande acidez que passou de cítrico a málico e acético”, acrescenta. 

Notas de degustação comuns para Purpuracea lavada incluem groselha preta, ameixa madura e lichia, enquanto o café processado natural tem notas de ameixa, algodão-doce, pera escalfada e chá-verde. “É um café único e, portanto, custa mais”, diz Tommaso. Mas vale a pena.

ramo de cafeeiro florido

A maioria dos produtores provavelmente nunca viu flores rosadas em plantas de café – e talvez nunca as encontre. Embora as mutações naturais possam certamente ocorrer, é muito raro encontrar flores rosadas em fazendas de café.

No entanto, cafés menos conhecidos – como o Purpuracea de Juan Diego – mostram um forte potencial no mercado de cafés especiais, que valoriza cada vez mais espécies e variedades raras e não convencionais. E à medida que produtores e pesquisadores continuam a desenvolver plantas híbridas, há a chance de vermos mais variedades de café com flores rosas no futuro.

Gostou? Em seguida, leia nosso artigo sobre como os produtores de café especial podem usar flores de café.

Créditos das fotos: IAC, Finca El Salvador

PDG Brasil 

Traduzido por Daniela Melfi

Quer ler mais artigos como este?  Assine nossa newsletter! 

Compartilhar: