7 de maio de 2021

Vantagens das Indicações Geográficas de café no Brasil

Existe uma mobilização de diversas regiões produtoras do Brasil em busca de Indicações Geográficas (também conhecidas como IGs) para valorizar o café. No país, das 32 regiões produtoras de café 10 localidades já conquistaram o selo, resultado de um processo de muitos anos, entre documentos e comprovações de que naquele território se faz um café diferente de outros. A região das Montanhas do Espírito Santo foi a última a conquistar o selo no Brasil. E outras estão a caminho.   

Será que esse reconhecimento contribui para dar mais visibilidade para os diferentes terroirs e produtores? As Indicações Geográficas contribuem para se conseguir um preço melhor para o café? Em busca desta e de outras respostas, o PDG Brasil conversou com alguns especialistas sobre o tema no Brasil.   

Segundo o Sebrae, o termo Indicação Geográfica é um guarda-chuva maior que abarca dois tipos de certificação: Indicações de Procedência e Denominações de Origem. São reconhecimentos diferentes. A Indicação de Procedência (IP) se refere ao território com notoriedade na produção de determinado produto ou prestação de um serviço. Um exemplo são as Panelas de Barro de Goiabeiras, bairro de Vitória (ES), ou os Calçados de Franca (SP). Já a Denominação de Origem (DO) se refere ao território onde as características do ambiente imprimem diferencial no produto ou no serviço. Ou seja, as peculiaridades da região afetam o resultado final do produto de forma que se possa identificar e medir essa influência. Um exemplo são os camarões da Costa Negra, no Ceará.

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fruto maduro do cafe

IMPORTÂNCIA DO SELO DE ORIGEM

Especialista em cafeicultura sustentável e consultor de projetos de desenvolvimento territorial rural e organizações da agricultura familiar, Ulisses Ferreira acompanhou bem de perto alguns projetos de busca de Indicações Geográficas, especialmente o da Região Vulcânica, em Poços de Caldas (MG). 

Para Ulisses, a principal vantagem da IG não é o acréscimo de preço. “Na minha opinião é um conjunto de fatores: a abertura de mercado, a melhoria da produtividade do território como um todo, a melhoria da qualidade do café do local como um todo, o acesso a mercados exigentes e a atração de investimentos para a região. É um conceito muito mais amplo”. 

“Uma boa governança do território certamente irá trazer maior conhecimento para o produtor, que por sua vez terá resultados na melhoria da produtividade e qualidade na sua propriedade. E isso é um retorno muito mais significativo do que o acréscimo de preço a uma saca de café vendida”, defende. “Não adianta nada ter o selo de uma IG em um café que não atingiu a qualidade demandada por um mercado cada vez mais exigente”, diz. 

Carmen Sousa, analista de Competitividade Sebrae, e Raquel Minas, analista de Inovação do Sebrae, explicam que, em um mercado cada vez mais competitivo, os empreendedores precisam se diferenciar da concorrência e desenvolver aspectos que agreguem valor aos seus produtos. “Esse registro é muito importante para a valorização do potencial e reconhecimento das características particulares dessas regiões produtoras de cafés”, afirma Carmen. 

A diretora executiva da BSCA (Associação Brasileira de Cafés Especiais), Vanusia Nogueira, segue a mesma linha. “O grande ganho para mim é que não é possível uma região obter a IG se não for por meio de um empreendimento coletivo. As pessoas de uma comunidade terão obrigatoriamente de se organizar, envolver o setor público com o INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial), as câmaras técnicas municipais, universidades locais, entre outros”. “É uma forma fantástica de contribuir para que essa turma toda trabalhe junta, pensando, discutindo em prol do bem comum. Sendo um processo genuíno, é um ganho tremendo”.

Vanusia não acredita em ganho direto de preço. “Acredito que a valorização tenha mais relação com a qualidade do que com ter ou não a IG. O selo já é resultado de um trabalho de busca pela qualidade”, explica.  

indicações geográficas de café

QUALIDADE E AUTENTICIDADE

João Pavesi é professor doutor em Agronomia e membro do Conselho Regulador da APEC, que faz a governança da Denominação de Origem Caparaó. Ele participou dos procedimentos para documentação e protocolo do pedido de reconhecimento da Denominação de Origem Caparaó junto ao INPI.

Ele explica que, como acontece na Europa para vários produtos, especialmente vinhos e queijos, as IGs têm por objetivos: a defesa dos territórios que têm produtos exclusivos, a defesa do nome/marca desses territórios e trazer notoriedade, comunicando ao mercado consumidor a distinção que existe nas diversas origens. “É como uma patente. A IG defende o nome do território diante de um mercado. Com ela, não se pode fraudar, por exemplo, um produto de uma certa origem, criando produtos paralelos.” 

Superintendente da Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Juliano Tarabal acompanha há mais de 15 anos o projeto do Cerrado Mineiro. A região foi a primeira que produz café do Brasil a depositar o pedido de Indicação Geográfica. O território obteve a Indicação de Procedência em 2005. A Denominação de Origem foi conquistada em dezembro de 2013. 

Juliano conta que, para obter o selo de origem, a região passa por diversas análises. Vão da história da região, notícias, caracterização edafoclimática (solo, temperatura, topografia, características climáticas, processo de produção agronômica), além de aspectos culturais e econômicos. No caso da DO, a exigência é maior. A região precisa enviar dezenas de amostras para serem comprovados os atributos influenciados pelo terroir. 

“A DO é uma certificação de origem e chancela o produto. Confirma que aquele café segue as normas, garantindo o uso das boas práticas agrícolas, sociais, ambientais, além da qualidade, pois o café tem de ter no mínimo 80 pontos na avaliação SCA.” Após esse cadastro do produtor e análise de amostras dos lotes, o café é armazenado em sacaria oficial e recebe o selo de origem. 

“O selo é também um código de rastreabilidade. O consumidor tem acesso às informações sobre o lote. História do produtor e da propriedade, geolocalização, fotos do produtor, laudo de qualidade e certificado de origem”, explica. “Garante ao comprador que aquele produto traz as características que a iG da região preconiza.” Para evitar fraudes, Juliano conta que a região conta com auditoria externa nas cooperativas, nos armazéns e nos exportadores credenciados. 

RECONHECIMENTO DO CONSUMIDOR

Georgia Franco, proprietária da microtorrefação, cafeteria e escola de barismo Lucca Cafés Especiais, considera o selo de origem essencial. “É uma comprovação da origem e da qualidade do café. Isso traz mais credibilidade para o cliente sobre a matéria prima que está sendo utilizada”, conta. 

Georgia lançou recentemente o projeto Adote uma Torrefação com a também mestre de torras Paula Dulgheroff, da torrefação Mundo Café. O projeto, que repassa cafés doados por cinco regiões do Brasil com Indicações Geográficas para torrefações, busca contribuir para minimizar o impacto desse momento desafiador de pandemia para as microtorrefações e cafeterias. “As IGs irão mostrar que o Brasil é imenso. É como se tivéssemos vários países dentro do mesmo país produtor. O país é grande e cada região tem a sua característica.” 

Juliano Tarabal, do Cerrado Mineiro, concorda. “Entendemos que a origem controlada é a principal estratégia para o café do Brasil se posicionar como o maior produtor de café de origem controlada do mundo.” Ele acredita que, se continuarmos vendendo o café do Brasil como um café único, não vamos a lugar algum. “Produzimos no Brasil cerca de 60 milhões de sacas/ano! Quando dividimos isso em regiões com IGs, conseguimos apresentar uma oferta mais diferenciada”, defende. 

Seja pela força de articular comunidades inteiras de um território em torno de um mesmo objetivo, seja pelo benefício de fomentar um projeto de cafés de qualidade, seja por valorizar os grãos vindos de diferentes origens, os especialistas com os quais conversamos concordam. As Indicações Geográficas trazem uma série de benefícios tanto para os produtores e para a economia das regiões, mas especialmente para o Brasil, contribuindo para que o consumidor e o mercado percebam a força e a diversidade dos cafés do país. 

Conheça mais sobre as Indicações Geográficas do Brasil neste álbum interativo do Sebrae.

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Créditos das fotos: Divulgação Federação dos Cafeicultores do Cerrado, Divulgação Associação dos Cafés Especiais Alta Mogiana (AMSC), Divulgação Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA)

PDG Brasil

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