Colocar os nomes dos produtores nas embalagens: quanto de valor é agregado?
As embalagens são fatores importantes nas estratégias de marketing e branding de qualquer torrefação. Quer estejam vendendo seus produtos em cafeterias ou supermercados (ou mesmo em ambos), ela precisa se destacar.
Assim como a identidade visual, as informações impressas nos pacotes de café são parte fundamental disso. Em particular, no café especial, espera-se que certas informações como origem, variedade e método de processamento, entre outras, sejam ali incluídas. E é cada vez mais comum ver os nomes dos produtores impressos nas embalagens.
Essa não é apenas uma informação incrivelmente útil para os consumidores saberem quem cultivou seu café. Ela também valoriza o trabalho árduo necessário para produzir cada xícara. Quando se trata dos próprios produtores, no entanto, cabe perguntar até que ponto isso realmente agrega valor e é beneficial para sua lavoura.
Para saber mais, conversei com Samantha Keane Morgan, diretora de compras de café verde da Balzac Brothers. E também com Ana Maria Donneys Correal, CEO do Café Primitivo.
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POR QUE AS TORREFAÇÕES INCLUEM OS NOMES DOS AGRICULTORES NAS EMBALAGENS?
É muito comum ver os nomes dos produtores impressos em pacotes de café torrado. Independentemente se os consumidores podem realmente não questionar por que essas informações estão inclusas, destacar o produtor, a fazenda ou a cooperativa que cultivou o café também ajuda a contar a “história” do produto e de onde ele veio.
Da mesma forma, informar os consumidores sobre quem produziu seu café faz parte de uma tendência mais ampla de sustentabilidade. Isso além de pressionar por mais transparência e rastreabilidade. Se um cliente souber (ou até conseguir reconhecer) o nome de um produtor ou fazenda específico, é provável que ele se sinta mais “conectado” à origem do que está consumindo.
Samantha Keane Morgan é a diretora de compras de café verde da Balzac Brothers, um importador de café da Carolina do Sul (EUA) que opera há mais de um século. “Do ponto de vista de um torrefador, fornecer mais informações ao consumidor e melhorar a rastreabilidade permite que ele diferencie sua marca de outros torrefadores que talvez não queiram ou possam fornecer essas informações”, ela explica.
“As tendências do setor sugerem um foco contínuo na rastreabilidade e na transparência. E assim os torrefadores pressionaram por uma visão mais ampla da cadeia de fornecimento de café. Incluindo a impressão dos nomes dos produtores nas embalagens”, acrescenta. “É sempre bom dar crédito a quem merece e fica mais fácil para os clientes apoiarem o mesmo agricultor ano após ano.”
CONECTANDO A CADEIA DE ABASTECIMENTO
A embalagem é uma ferramenta de marketing incrivelmente útil para torrefadores de café especial. No entanto, para ser o mais eficaz possível, precisa estar alinhado com a marca de um torrador e informar o consumidor.
Além de ser a CEO do Café Primitivo, Ana Maria Donneys Correal é vice-presidente da divisão da International Women ‘s Coffee Alliance Colômbia e produtora de café. Ela explica que exibir os nomes dos agricultores nas embalagens incentiva os consumidores a se interessarem mais por aprender sobre a produção de café.
“Assim como os torrefadores, os produtores fazem parte do que torna o café tão especial”, diz ela. “Ter o nome da pessoa que cultiva ou processa o café na embalagem torna-se uma assinatura de qualidade, o que desperta o interesse dos consumidores em saber mais sobre o trabalho que fazemos na origem.”
Samantha concorda e observa que pode ser uma maneira útil de garantir relações de trabalho de longo prazo.
“Se incluir informações sobre o produtor ajuda a aumentar a probabilidade de compras de café repetidas por importadores, torrefadores e consumidores, as estratégias de branding que incluem os nomes dos produtores podem ajudar a preencher parte da lacuna entre produção e consumo”, diz.
CONSIDERANDO A PERSPECTIVA DO PRODUTOR DE CAFÉ
Da mesma forma que um número crescente de clientes está expressando interesse em saber mais sobre a produção de café, alguns agricultores também querem se sentir mais conectados aos consumidores finais. Há muitas maneiras de facilitar isso, incluindo a tecnologia blockchain e outras plataformas digitais, mas apresentar os nomes dos produtores pode ser uma das maneiras mais simples e eficazes.
Ana Maria acredita que os agricultores que têm uma “assinatura” em seu café (como métodos exclusivos de processamento de fermentação controlada) muitas vezes podem se beneficiar mais disso.
“Esses produtores, em particular, estão trabalhando duro para entender como podem projetar seus métodos de processamento para criar perfis de sabor específicos”, diz ela. “Acredito que esse trabalho árduo merece ser reconhecido em toda a cadeia de valor.
“Hoje em dia, há mais produtores do que nunca que estão criando maneiras inovadoras de melhorar a qualidade do café e destacar diferentes atributos de sabor”, acrescenta ela. “É muito diferente do que o mercado estava acostumado anteriormente.”
Existem razões para não colocar os nomes dos agricultores nas embalagens?
Alguns podem argumentar que seria um enorme descrédito não incluir o nome do produtor, fazenda ou cooperativa em um saco de café especial torrado. E essa lógica faz sentido — não atribuir o trabalho árduo e a experiência necessários para cultivar café de alta qualidade à pessoa ou fazenda que o produziu pode dificultar a construção de sua reputação pelos produtores.
Ana Maria, no entanto, diz que, em alguns casos, pode haver boas razões para não incluir o nome de um produtor em um saco de café — especialmente para blends. “Para manter o perfil de sabor de seus blends consistente, alguns torrefadores obtêm de diferentes origens, portanto, incluir os nomes dos agricultores na embalagem pode ficar confuso”, diz ela.
Samantha, por sua vez, adverte que a privacidade e a criação de preconceitos injustos podem ser outras preocupações. “É sempre importante considerar a privacidade dos produtores e dos trabalhadores agrícolas. Os compradores de café verde devem sempre pedir permissão ao agricultor ou à cooperativa para incluir informações pessoais no material de marketing”.
“Comercializar o produtor ou a cooperativa na embalagem também pode criar valor percebido. Isso ajuda os clientes a escolher a partir das informações nas embalagens algo que faça sentido para eles. Como um blend da casa que tenha menos informações impressas”, acrescenta ela.
OUTRAS FORMAS DE PREENCHER A LACUNA ENTRE O CONSUMIDOR E O PRODUTOR
Naturalmente, há um limite para a quantidade de informações que podemos incluir na embalagem do café. E embora os torrefadores também possam distribuir cartões com descrições mais detalhadas, existem outras maneiras eficazes de se envolver com os consumidores.
“À medida que os bebedores de café se tornam mais interessados na produção e os produtores usam as mídias sociais e outras ferramentas online para mostrar nosso trabalho, a diferença diminuirá a cada dia”, diz Ana Maria. “Há um longo caminho a percorrer, mas os consumidores se tornam mais exigentes, conscientes e informados a cada dia.”
Ela acrescenta que alguns clientes entram em contato com o Café Primitivo por meio das mídias sociais para fazer perguntas, demonstrando um claro interesse pelo que acontece nas fazendas de café. “Esse tipo de experiência nos faz sentir valorizados e nos inspira a continuar melhorando nossas práticas para aumentar a qualidade do café”, diz ela. “Nos sentimos ouvidos e que nosso trabalho e esforço estão transcendendo.”
Preços mais altos são a chave
Samantha explica que, para os produtores, a maneira mais impactante de agregar valor ao seu café é receber preços mais justos e altos. “A melhor maneira de impactar a cadeia de suprimentos de café de forma sustentável é usar seu poder de compra como consumidor, torrador ou importador”, explica ela. “Cada novo comprador tem que estar disposto a colocar seu dinheiro onde está sua boca. Comprar café consistentemente a preços sustentáveis é a melhor maneira de influenciar o futuro da indústria cafeeira.”
Ana Maria concorda, dizendo que a responsabilidade compartilhada é essencial. “Acredito que todos temos uma responsabilidade onde quer que trabalhemos na cadeia de valor do café”, diz ela. “Os produtores devem ser transparentes sobre nosso trabalho para os clientes. Os exportadores precisam contar a história por trás do produto. Os importadores precisam compartilhar essas informações com os torrefadores. E os torrefadores precisam mostrar aos consumidores o que é necessário para fazer uma boa xícara de café.”
Colocar os nomes dos produtores nas embalagens do café e compartilhar suas histórias é uma das muitas maneiras de criar uma cadeia de valor mais equitativa. Mas, em última análise, há muito ainda por fazer.
Para termos mais sustentabilidade, transparência e rastreabilidade, é necessário pressionar os mercados por preços mais justos e partilhar o máximo possível de informações sobre o café. E uma grande parte disso definitivamente inclui saber quem cultiva seu café.
Gostou? Em seguida, leia nosso artigo explorando como as certificações são usadas para comercializar café.
Tradução: Daniela Melfi.
PDG Brasil
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