16 de fevereiro de 2024

A simbiose entre fungos e o cafeeiro

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Costumamos ouvir que a cafeicultura, como um setor, é atingida em várias frentes. Fenômenos climáticos, carência de financiamento, baixa produtividade e aumento dos custos de produção são alguns dos problemas que assolam um grande número de produtores de café. Em face desta situação, muitas vezes não basta apenas se esforçar mais, trabalhar mais horas ou investir mais recursos. Para alcançar uma produção eficiente, é imprescindível entender o ambiente e adaptar as ferramentas disponíveis para maximizar os resultados.

A simbiose entre fungos e plantas de café é um exemplo disso, mas o desenvolvimento correto dessa relação depende de uma certa intervenção do agricultor. Como forma de saber mais sobre os benefícios e os requisitos dessa simbiose, conversei com dois produtores de café que compartilharam suas experiências e opiniões. Continue lendo para saber o que eles recomendam.

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Mãos mostrando local no solo onde há simbiose de fungos com raízes do cafeeiro

O QUE É A SIMBIOSE E POR QUE ELA É TÃO IMPORTANTE?

Carlos Pola é de El Salvador e se dedica ao cultivo de café com foco no mercado de cafés especiais. Ele afirma que “aproximadamente 80% das plantas do planeta têm uma relação simbiótica com microrganismos.” Ele explica ainda que um dos principais problemas do setor hoje em dia é que os solos sofreram uma degradação em seu conteúdo de nutrientes, muitos dos quais são essenciais para o desenvolvimento adequado das plantas de café.

Essa erosão do solo se deve ao sol, ao vento, à chuva e ao uso excessivo de agroquímicos. Para manter altos níveis de produção, alguns cafeicultores costumam recorrer ao uso excessivo de fertilizantes agroquímicos, herbicidas e fungicidas, entre outros. E com isso agravando os problemas ambientais e degradando ainda mais o solo. Isso acaba aumentando a necessidade de mais e mais agroquímicos para produzir café.

Regulando o PH do solo

Arnold Paz é um produtor de café hondurenho que trabalha em uma fazenda familiar chamada San José, localizada em Santa Bárbara. Além disso, ele trabalha na fazenda Santa Elena, em San Juan Intibucá. Ele explica que a simbiose é uma colaboração entre dois seres em que um se beneficia do outro.

Segundo ele, a simbiose também é fundamental para enfrentar o problema do pH na produção de café nos solos da América Latina. O café necessita de um nível de pH de no mínimo cinco e no máximo oito, uma faixa presente nos solos africanos, de onde o café é originário. Na América Latina, vemos níveis de pH entre quatro e três, o que contribui para a formação de alumínio.

O alumínio queima a raiz e impede que a planta se alimente de forma adequada. Por isso, os processos aplicados para aumentar o pH dos solos são geralmente caros e podem aumentar o custo de produção em 10%. Nesse contexto, Arnold diz que o pinheiro tem resistência ao solo ácido porque desenvolve uma simbiose com um fungo benéfico. Esse fungo protege a raiz do alumínio e permite que a planta absorva nutrientes. O mesmo princípio pode ser aplicado ao café.

Vista de uma fazenda de cultivo sustentável de café

COMO SE DESENVOLVE A SIMBIOSE ENTRE O CAFEEIRO E OS FUNGOS?

Carlos explica que as associações simbióticas que são criadas entre as raízes das plantas terrestres e certos tipos de fungos do solo são chamadas de micorrizas.  É uma rede que permite que plantas e fungos trabalhem em harmonia, possibilitando a troca de nutrientes e umidade.

Muitas vezes, os nutrientes são encontrados nos solos, mas não estão disponíveis para as plantas, seja por causa da distância ou porque não estão presentes na forma necessária. “As micorrizas têm a capacidade de buscar água e nutrientes multiplicando várias vezes a distância que conseguem cobrir as raízes da planta, tornando-se praticamente uma extensão da raiz”, explica Carlos. Ele acrescenta que elas também têm a capacidade de decompor os nutrientes por meio de enzimas em compostos simples que podem ser assimilados pelas raízes.

Por outro lado, Arnold argumenta que “as micorrizas criam um ambiente para a umidificação de cloretos, sódio, potássio e fósforo. Assim, o canal de entrada de alimentos na raiz é formado e a absorção de alimentos é otimizada”.

Por que os fungos não destroem as plantas e ainda ajudam a formar uma camada protetora?

Arnold destaca que a micorriza é um fungo benéfico, mas que também existem fungos prejudiciais, especialmente aqueles que competem pelo potássio disponível. Os fungos, por dependerem da planta para sua sobrevivência, procuram contribuir para a defesa da planta a fim de continuar o processo de simbiose. Carlos afirma que as micorrizas “não apenas produzem alimento para a planta, mas também a protegem de doenças“.

Carlos explica que as micorrizas proporcionam água e nutrientes que obtêm do solo em troca de carboidratos que as plantas produzem por meio da absorção de dióxido de carbono e da fotossíntese. Essa simbiose contribui não apenas para a redução do uso de fertilizantes, como também para a criação de solo e a captura de dióxido de carbono que se encontra presente na atmosfera em quantidades excessivas devido à poluição.

“O que fizemos no cultivo do café foi procurar a substância ou o mecanismo que faz com que a raiz do café adquira essa micorriza”, conta Arnold. No caso deles, a implementação de algas marinhas tornou possível transferí-la do pinheiro para o café. Ele ressalta a importância de investigar que tipo de insumo deve ser aplicado ao cafeeiro de acordo com o solo, para que ela possa migrar. Por outro lado, outro aspecto importante diz respeito à disponibilidade real de micorrizas nas árvores de sombra ao redor.

Produtor analisando o desenvolvimento de sua lavoura

QUAL IMPACTO A SIMBIOSE TEM NO RENDIMENTO E NA QUALIDADE DO CAFÉ?

Para Arnold, qualquer limitação ou barreira à absorção de fertilizantes diminui a produtividade, às vezes a ponto de não ser mais lucrativa porque não cobre os custos de produção.

“Nosso principal objetivo é gerar terras que não existem mais”, diz Carlos. De acordo com ele, a criação do solo contribui para a retenção de água, a atividade biológica, o abastecimento de nutrientes e a regulação da temperatura. Tudo isso é necessário para o desenvolvimento adequado dos cafeeiros. A autorregulação dos micro-organismos resulta em uma planta bem nutrida, o que se traduz em qualidade e saúde dos frutos.

Particularmente importante neste ano, com temperaturas recordes e precipitação acumulada abaixo de 50% até o presente, a sombra das árvores, a cobertura do solo e as micorrizas nos permitiram manter as culturas em condições ótimas.

Recomendações gerais aos produtores

Para começar, Carlos sugere, “o principal é criar a arquitetura na fazenda para que as micorrizas se espalhem”. Também aconselha a implementação de micorrizas nativas do ecossistema, pois as micorrizas estrangeiras podem não ter a melhor adaptação ou relação com as plantas autóctones. Para ele, é muito importante criar as condições necessárias para o desenvolvimento adequado dessa simbiose. Isso implica reduzir o uso de herbicidas, garantir sombra suficiente e manter o solo coberto com matéria orgânica ou legumes para evitar a exposição ao sol.

O baixo investimento na implementação de micorrizas, as melhorias na produtividade e a redução no uso de agroquímicos representam uma alternativa de grande impacto econômico e ambiental, se adequadamente gerenciada. Ambos os entrevistados são unânimes em afirmar que os benefícios da simbiose na fazenda são amplos e consideram que mais agricultores deveriam adotar a simbiose para aproveitar seus benefícios.

Solo com características que indicam uma simbiose bem sucedida entre fungos e raízes de pés de café

De acordo com os testemunhos de Carlos e Arnold, fica claro que o uso de ferramentas naturais, como a simbiose entre fungos e café, pode produzir resultados favoráveis para a cultura sem a exigência do uso de produtos químicos que, a longo prazo, terminam por afetar o ecossistema e até mesmo a saúde dos agricultores.

Com pesquisa e orientação técnica, os cafeicultores podem encontrar nessa alternativa uma maneira viável de otimizar sua produtividade.

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Créditos das fotos: Carlos Pola.

PDG Brasil

Tradução: Isabel Andrade

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