19 de dezembro de 2022

A evolução do café no Reino Unido

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Hoje é comum ver cafeterias em qualquer rua no Reino Unido e, com o consumo de cafés especiais crescendo em ritmo acelerado, parece que isso não vai mudar tão cedo. Engana-se, no entanto, quem pensa que essa seja uma tendência recente. Na verdade, o protagonismo do café no Reino Unido já vem de centenas de anos atrás.

Em meados do século 18, estimava-se que havia milhares de cafés apenas em Londres. Se a capital do Reino Unido tivesse o mesmo número de cafeterias per capita que possuía naquela época, elas seriam muito mais numerosos do que os encontrados nas cidades britânicas atualmente.

Mas como as cafeterias do Reino Unido se tornaram uma indústria que hoje vale cerca de US$ 102 bilhões? Como elas se tornaram parte das vidas cotidianas da população local? E as cafeterias – e as pessoas que as frequentam – realmente mudaram tanto nos últimos séculos?

Conversei com dois especialistas em café de renome mundial para saber mais sobre a história da cultura do café no Reino Unido e como as coisas mudaram. Continue a ler para saber o que disseram.

Você também pode gostar do nosso tour de cafés especiais em Londres.

Cafeteria do Reino Unido

Os primeiros passos do café no Reino Unido

Em meados do século XVI, a humilde cafeteria chegou à Europa através do Império Otomano. Suas raízes remontam a Constantinopla, onde dois irmãos sírios estabeleceram o que é reconhecido como um dos primeiros cafés do mundo.

O professor Jonathan Morris, autor de Coffee: A Global History e apresentador do podcast A History of Coffee, diz que mesmo as primeiras cafeterias tinham uma qualidade profundamente acolhedora. “Aqueles primeiros cafés árabes tratavam as pessoas como iguais, no sentido de que você era servido e se sentava na ordem em que entrava, numa atmosfera democrática.”

Demorou mais ou menos um século para o café viajar para a Europa. A primeira abriu em Oxford, Reino Unido, em 1650 ou 1651. Um ou dois anos depois, um homem chamado Pasqua Rosée (que se acredita ser de algum lugar perto da Croácia moderna) estabeleceu o primeiro café em Londres.

Rosée era criado de um comerciante e montou uma barraca de café no St Michael’s Alley, em Londres, em 1652. Ele então abriu um café permanente dois anos depois, antes de seguir com outro em Paris, em 1672.

A localização e o momento são significativos, porque imediatamente atraiu dois tipos de clientes: comerciantes, que trabalhavam nas proximidades, e o público que desejava discutir os acontecimentos atuais da época – ou seja, os dias finais da Guerra Civil Inglesa.

A era das “universidades de um centavo”

Com o tempo, surgiu um terceiro tipo de cliente: o virtuoso. Eram intelectuais – autoproclamados ou não – que se reuniam para discutir e compartilhar ideias que muitas vezes eram inovadoras ou estranhas para a época.

Robert Thurston, professor emérito de história na Universidade de Miami e autor de Coffee: From Bean to Barista, diz: “A clientela era um tanto democrática. A melhor palavra para descrevê-la era uma atmosfera de ‘sagacidade’. Se você muito conteúdo ou muita curiosidade, você poderia se sentar numa mesa de café e conversar com outras pessoas.”

Esse elemento de democracia pode explicar por que as cafeterias logo passaram a ser conhecidas como “universidades de um centavo”. Pessoas comuns podiam comparecer pelo preço de um centavo, ler jornais e se envolver nas discussões e debates do dia. No entanto, esse não era o caso das mulheres – já que as cafeterias do Reino Unido estavam fora do alcance delas, a menos que estivessem trabalhando lá.

Café no Reino Unido - Vista de rua no centro de Londres

A lenda dos cafés no Reino Unido

Instituições famosas que ainda existem podem traçar suas origens em cafés fundados há séculos. Por exemplo, o Lloyd’s Coffeehouse teve tantos negócios fechados entre comerciantes e marinheiros dentro de seus muros que acabou se tornando o Lloyd’s de Londres – um dos maiores e mais antigos mercados de seguros do mundo.

Da mesma forma, o Jonathan’s, um café que sobreviveu a incêndios e a várias mudanças ao longo dos anos, foi um dos primeiros lugares onde havia a negociação de ações e commodities. Quando um grupo de comerciantes desordeiros foi expulso da Royal Exchange, o Jonathan’s se tornou a Bolsa de Valores de Londres.

Também é dito que no White’s, na St James’s Street, os clientes fariam grandes apostas sobre quanto tempo os outros clientes viveriam. Essa prática bastante mórbida, acredita-se, deu origem à indústria de seguros de vida.

Da mesma forma, The Spectator, a publicação semanal mais antiga do mundo, teve seu início nos cafés do início do século XVIII em Londres. Joseph Addison, um político da época, era considerado um escritor brilhante, mas um péssimo orador público.

Naquela época, a conversa era importante, a natureza democrática do café significava que um cliente também era livre para ouvir e assistir às discussões dos outros. E assim, publicando o que ouviu, Addison criou The Spectator. Hoje, a publicação respeita essa herança, com um blog em seu site intitulado Coffee House.

O Coworking primitivo

Os cafés de Londres dos séculos XVII e XVIII também foram, surpreendentemente, os primeiros exemplos de espaços de coworking. Os clientes ocupavam mesas com seus papéis, lápis e canecas de café, preparando-se para um dia de trabalho.

No entanto, nas últimas partes do século 18, as cafeterias começaram a vender álcool e, posteriormente, tornaram-se mais turbulentas.

Jonathan diz: “Coincidindo com o auge da popularidade do café é o desenvolvimento da mania do gin. As cafeterias começaram a oferecer álcool e os pubs colocaram café em seu cardápio, então as coisas começaram a se misturar.”

Cafeteria do Reino Unido

Uma história moderna: o cappuccino e a contracultura

Após o surgimento do álcool, a linha entre pub e cafeteria no Reino Unido começou a se confundir. Foi preciso cerca de 200 anos para que os cafés no Reino Unido tivessem sua relevância renovada.

No entanto, na década de 1950, o Reino Unido passou por uma série de mudanças sociais significativas, acolhendo imigrantes de ex-colônias e países da Commonwealth.

Posteriormente, nas décadas de 1950 e 1960, a área do Soho, em Londres, tornou-se jovem, diversificada e eclética; por sua vez, as cafeterias começaram a surgir.

Alguns exemplos famosos incluem o La Macabre, um café decorado com paredes pretas, teias de aranha, caveiras e caixões, e o Moka Bar, o primeiro espresso bar de Londres. A novidade, a acessibilidade e a falta de qualquer restrição de idade fizeram com que, no início dos anos 1960, esses lugares se tornassem símbolos populares da contracultura.

“Essas cafeterias do Soho foram inspiradas no espresso italiano”, diz Jonathan. “No entanto, o que eles realmente eram eram os lugares que os adolescentes iam porque não queriam estar com seus pais no pub.”

Os cafés e aqueles que atendiam um público adolescente na época podiam ser lugares animados, tocando música de uma jukebox ou uma banda ao vivo. Essa atmosfera encorajava os clientes a dançar, enquanto outros simplesmente continuavam com suas conversas.

O professor Morris acrescenta: “Havia um entusiasmo em torno do café na década de 1950, foi quando terminou o racionamento. Mas o café ainda era muito secundário em relação ao lado social das coisas”.

As cafeterias estariam abertas de manhã cedo até tarde da noite, e o tipo de cliente variava dependendo da hora do dia. Em pouco tempo, a clientela de um café se tornou mais diversificada do que nunca. Ela incluía todos: trabalhadores de fábricas e de escritório, empresários e músicos, além de pessoas de todas as nacionalidades.

Era algo muito democrático, mesmo numa época em que nem sempre se podia dizer o mesmo da sociedade inglesa em geral.

Decadência a partir dos anos 60

Em meados da década de 1960, no entanto, as coisas mudaram mais uma vez. O Reino Unido era a capital da música popular do mundo. À época, os adolescentes migraram para locais de música ao vivo, boates e lojas de discos. As cafeterias ficaram em segundo plano quando a década chegou ao fim.

À medida que o instantâneo de marca se tornou mais popular, nas décadas de 1970 e 1980, a clientela começou a beber seu café em outros lugares. Quase assim que o ressurgimento começou, a bolha estourou.

Os cafés foram substituídos por vários locais que vendiam café da manhã barato, chá e café instantâneo. Demoraria ainda mais algumas décadas para que as cafeterias do Reino Unido voltassem a ter algum protagonismo.

Cafeteria do Reino Unido

O crescimento da cena do café especial no Reino Unido

Avançando rapidamente para 2005, o Soho estava mais uma vez no epicentro do mais recente desenvolvimento da cafeteria do Reino Unido.

Peter Hall, um australiano, e Cameron Maclure, um neozelandês, queriam um lugar onde pudessem desfrutar de uma xícara de café de qualidade como aqueles que eles apreciavam em casa. A solução foi abrir o Flat White na Berwick Street. Foi, para todos os efeitos, o sucessor espiritual daqueles bares de café espresso do Soho nos anos 1950.

A cena do café, tanto na Austrália quanto na Nova Zelândia, já era muito mais avançada à época. Ambos estavam focados em entregar bebidas de melhor sabor, concentrando-se na produção, torrefação e preparação de café de alta qualidade. Eles também queriam entregar algo que nem sempre foi uma característica dos cafés do Reino Unido: um alto nível de atendimento.

Inicialmente, os clientes eram expatriados da Austrália e da Nova Zelândia em busca de um bom café, mas logo os funcionários de escritório e frequentadores de final de semana desenvolveram um gosto por essa nova e emocionante versão de uma tradição centenária.

Mesa com xícaras de café

Nos anos desde que Hall e Maclure abriram o Flat White em 2005, cafés especiais abriram em massa em Londres e agora estão se expandindo para cidades menores em todo o Reino Unido.

A capital do país tornou-se um foco de inovação do café na Europa e muitos micro-torrefadores começaram a surgir ali. As perspectivas para os cafés especiais no Reino Unido são certamente positivas, mas o que virá a seguir? Aconteça o que acontecer, serão com certeza anos interessantes.

Gostou? Então experimente nosso artigo sobre como a cena de cafés especiais de Londres está evoluindo.

Créditos da foto: Unsplash

Tradução: Daniela Melfi.  

PDG Brasil

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