19 de maio de 2022

Como a coleta de dados na produção do café pode impulsionar a produtividade e a qualidade

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Você é do tipo que anota as informações da lavoura e do armazém no caderninho? Então pare tudo e venha ler este texto. A coleta de dados organizada da produção de café na fazenda ou no sítio é essencial para a vida do cafeicultor e da cafeicultora hoje.

Tudo indica que, em breve, toda (ou a maior parte da) produção agrícola mundial passará a acontecer no sistema de “smart farming” ou “agricultura inteligente”, um conceito que une sistemas de gestão de informação (com coleta e análise de dados, do planejamento à distribuição), agricultura de precisão (com uso de GPS e drones, por exemplo) e robótica e automação agrícola (com equipamentos inteligentes e autônomos e drones para aplicações na lavoura).   

Parece coisa de cinema? Nada disso. Acredite, já está acontecendo. Da mesma forma que a internet e o celular eram distantes da nossa realidade há alguns anos e agora todos nós temos acesso a eles, essa nova forma de praticar a agricultura está pouco a pouco sendo implementada em fazendas em formato experimental e está ganhando novos adeptos, inclusive com apoio financeiro do BNDES.

O primeiro passo dessa nova forma de produzir alimentos é começar a organizar as informações de cada safra, de cada talhão, de cada lote, registrando cada dado e o caminho que esses cafés farão até a entrega ao cliente.

Para entender como algumas ferramentas podem contribuir nesse processo, inclusive potencializando a produtividade e a qualidade, o PDG Brasil conversou com quatro produtores de cafés de qualidade de diferentes regiões do Brasil. Siga lendo para conhecer suas experiências e como solucionaram na prática alguns desafios.  

Você também pode gostar de ler A arte de fotografar café: histórias de quem registra a beleza cafeeira do Brasil.

coleta de dados café

Coleta de dados organizada X Coleta de dados desorganizada

Mesmo em pequenas propriedades e com uma produção de café reduzida, é difícil saber tudo o que está acontecendo na lavoura e no armazém. E esse desafio se estende a todos os produtores rurais, pequenos, médios, grandes…

Qual talhão já foi irrigado? Qual recebeu adubo? Qual está com alguma praga? A geada pegou aqui ou ali? Qual rua está com os frutos já maduros? Já passamos naquele pé quantas vezes? E no terreiro? Como saber há quantos dias o café está lá? Nesse período choveu? Fez frio ou sol? Esse café aqui estava no terreiro suspenso?

Da mesma forma, no armazém, é preciso ter controle sobre qual lote já passou pelo secador, qual já foi limpo, qual está na tulha X ou Y, entre muitas outras informações essenciais para conhecer aquele café.

cafés especiais

Lucas Venturim é produtor de café conilon especial na Fazenda Venturim, em São Domingos do Norte, em Pontões, Semi-Árido Capixaba, Espírito Santo. Sua produção média anual gira em torno de 4.000 sacas. Por trabalhar com conilon, o controle é mais desafiador, pois sua lavoura conta com quatro variedades, compostas por mais de 50 materiais genéticos (clones) diferentes.   

Ele conta que em 2019 já tinha um trabalho de rastreabilidade em sua fazenda, mas feito com formulários impressos e planilhas. “Às vezes, ficávamos sem as informações, pois algum formulário se molhava ou se perdia mesmo. Outro problema era compilar os dados depois para gerar informações realmente úteis”, lembra. Imagina o trabalhão para digitalizar tudo?

Em um momento em que compradores pedem muitos detalhes sobre o café e como foi produzido, cada registro pode fazer falta. Lucas recorda de como era difícil sem uma coleta organizada. “Sempre que um cliente queria mais detalhes sobre algum lote, precisávamos encontrar as fichas referentes àquele lote e pinçar os dados de lá. Trabalho bastante moroso e que não ficava salvo em nenhum lugar”, diz.

A solução nesses casos é contar com a coleta de dados organizada, por meio de ferramentas especializadas. A ideia dessas ferramentas é fazer com que os dados fiquem digitalizados e concentrados em um só lugar, de forma que seja possível:

1 – Organizar a forma como se registra os dados, com padrão e sempre no mesmo programa, minimizando a possibilidade de perda de dados,

2 – Diferentes pessoas registrarem os dados sem erros e dentro do padrão,

3 – Pessoas que não estejam na fazenda acessarem os dados,

4 – Gerar relatórios com informações que contribuam com maior eficiência,

5 – Compartilhar alguns desses dados de maneira organizada.

coleta de dados café

Soluções em diferentes frentes

Atualmente, há diversos softwares voltados para a gestão dos dados. Isso inclui a captação, o armazenamento, a organização e a análise de grandes quantidades de dados de uma empresa. Embora as possibilidades sejam inúmeras, é preciso levar em conta que a produção do café exige conhecimento específico e aprofundado das diversas fases de produção e pós-colheita, armazenamento e torra. Assim, com conhecimento aprofundado sobre o cultivo de café, dá para realizar uma coleta de dados adequada a cada um desses estágios. 

Um exemplo de software desenvolvido para a realidade da cafeicultura é o Cropster Origin, da Cropster. A empresa global nasceu focada em oferecer soluções para a produção de café. Por isso, é especializada no assunto.

O Cropster Origin, solução que chegou recentemente ao Brasil, é um sistema completo de gestão de informação para cafeicultores, desde o pós-colheita na fazenda à chegada da cereja ao armazém, incluindo ferramentas de degustação e classificação, contribuindo na obtenção de qualidade, eficiência e, consequentemente, lucratividade.   

Entre alguns dos diferenciais do Cropster Origin, estão:

  • controle de recebimento de café,
  • monitoramento do ambiente de processamento,
  • constância na qualidade do café,
  • compartilhamento dos dados com os clientes,
  • agilidade aos envios de amostras,
  • monitoramento das vendas dos lotes e status do beneficiamento.
software para degustação café

O cafeicultor Marcos Kim, da Fazenda São Sebastião, em São Tomé das Letras (MG), no Sul de Minas (MG), utiliza o software. Para ele, um dos grandes benefícios da ferramenta é a conectividade que traz. “Poder acompanhar em tempo real a movimentação de uma colheita e pós-colheita por um aplicativo traz muitas vantagens. Uma delas é poder planejar melhor o fluxograma dos processos, que vão desde o registro do lote, monitoramento durante a seca e a prova desses lotes usando o próprio aplicativo”, explica.

Marcos conta que utiliza com bastante frequência o registro das provas de cafés, o Cropster Cup, e que essa ferramenta foi importante para separar os cafés por qualidade. “Como provamos todos os microlotes, isso ajudou a separar os grãos por notas sensoriais, aspecto e processos. Essa organização sensorial e da qualidade foi essencial.”

Além disso, a ferramenta permite que vários usuários convidados possam provar os cafés. “Com isso, conseguimos saber as diferentes opiniões e conseguimos ter uma média nos resultados das avaliações.” 

farming 3.0

Sem medo do novo

Após a definição do software com o qual se vai trabalhar, é importante estar aberto à novidade e transmitir isso para a equipe, de forma que todos fiquem engajados e comprometidos com a coleta de dados.

Capacitar os colaboradores, apresentando os benefícios, como praticidade, agilidade e eficiência dos sistemas, contribui para um maior entendimento da ferramenta.   

Lucas envolveu seus colaboradores no projeto. “Toda mudança assusta um pouco no início e, por isso, às vezes se cria alguma resistência. Mas, quando a gente contextualiza e mostra os objetivos finais daquela mudança, como vai proteger nossos dados e evitar retrabalho, todos entendem melhor o processo”, conta.

“Nós aqui usamos o Cropster Origin, da Cropster, desde 2020. A interface do sistema é bastante intuitiva e amigável. Alguns funcionários inclusive se sentiram mais ‘incluídos’ no processo de qualidade por poderem lançar os dados diretamente na ferramenta”, diz.

“Primeiro é preciso perder o medo da coleta de dados. Olhando de fora, parece complicado e trabalhoso, mas depois que entra na rotina, é como lavar os equipamentos depois de usar… só mais uma etapa do processo.”

Lucas comenta que, antes, ao anotar em formulários e passar para outra pessoa lançar, além de gerar retrabalho e aumentar a possibilidade de erros e informações desencontradas, os colaboradores também não entendiam o que estavam fazendo e onde aquela informação seria usada. “Hoje, a utilização do sistema é rotina na fazenda.”   

organização das informações fazenda

Vinicius Lima é Q-grader e responsável pela qualidade da Fazenda Alegria, situada no município de Barra do Choça, região do Planalto de Vitória da Conquista, na Bahia. A fazenda produz cerca de 500 sacas anuais das variedades catuaí amarelo e vermelho e arara e com um foco na produção de qualidade. Nos últimos dois anos, a produção alcançou uma proporção de 70% de cafés de especialidade.  

Na própria fazenda, é feita a torra do café, comercializado com a marca Colheita das Alegrias. Por conta disso, Vinicius buscou uma solução que fizesse a gestão de dados dos dois negócios: fazenda e torrefação. E o sistema da Cropster supriu essas duas necessidades.

Ele conta que a equipe acompanhou todo o processo de implementação do sistema. “A novidade foi vista com muita receptividade justamente pela facilidade que apresenta na gestão de dados da colheita e da torrefação”, explica. Vinicius lembra que as poucas dificuldades que apareceram foram mais por ser algo novo na rotina. “Mas foram se resolvendo com o próprio uso e com o suporte da empresa.”

dados organizados na fazenda

Como a coleta de dados organizada promove produtividade e rastreabilidade

Importante dizer que os produtores e a produtora com os quais conversamos não estavam querendo apenas ficar “organizadinhos”. A ideia de implementar uma coleta de dados organizada passou sempre por fortalecer a produtividade, a qualidade e a rastreabilidade da produção de café.

“Essa rastreabilidade tanto pode agregar valor na sua venda (toda certificação precisa ter um controle de rastreabilidade), mas também pode te dar informações importantes sobre rendimento de cada talhão, produtividade, tamanho dos grãos por talhão, ou por variedade, ou produtividade das equipes de colheita (ou até de cada indivíduo)”, explica Lucas Venturim.

“Enfim, o sistema é uma baita ferramenta para qualquer fazenda, independentemente se trabalha no nicho de cafés especiais ou não.”

produtividade e tecnologia café

Vinicius vai na mesma toada e diz que percebe muito claramente o impacto da coleta de dados no fortalecimento da rastreabilidade. “Contribuiu muito. Especialmente para a rastreabilidade de todos os talhões e processos de produção. Como o Cropster oferece integração com a parte de torra, conseguimos fazer uma gestão bem legal. Uma funcionalidade que utilizamos muito é a de etiquetas, que ajuda na organização das sacas e amostras.”

Para ele, a partir do momento em que o sistema facilita e otimiza o registro de dados e a análise deles, já contribui com a maior produtividade na fazenda. “O software trouxe a possibilidade de comparar os dados inseridos com agilidade, além de trazer maior profissionalização à produção.”

Especialmente no que se refere à produtividade da fazenda, Marcos concorda. “Quando você tem uma organização, controle e principalmente uma visão ampla de todos os processos, a ferramenta ajuda muito, por exemplo, na fase de monitoramento das secas dos cafés.”

Ele explica que, pela data do registro, consegue decidir qual lote irá entrar para finalizar as secas nos secadores rotativos e estáticos. Com isso, organiza melhor a distribuição dos lotes que estão chegando no terreiro com os lotes que já estão lá secando.

tecnologia fazenda café

Livia Mundim também teve uma experiência positiva. Além de gerente de contas Cropster Brasil, ela é produtora de café na Fazenda Santa Fé da Vereda, no município de Romaria, na região de Monte Carmelo, Cerrado Mineiro (MG), e teve a possibilidade de vivenciar na prática o produto que comercializa.

A produção média dos seus cafezais é de 3.000 a 4.000 sacas anuais. Em 2021, Livia fez a primeira incursão no universo dos cafés especiais e testou alguns processos em 12 sacas no total. “Antes praticamente não havia coleta de dados, tudo era feito manualmente em um caderno”, conta a produtora.

Dois profissionais de cafés de especialidade, Marquinho e Matheus Tinoco, deram suporte em todo o processo, e a equipe da fazenda também participou, ajudando na construção do terreiro suspenso e no monitoramento dos cafés tanto no terreiro de cimento quanto no suspenso. “Experimentamos diferentes processos de fermentação utilizando pequenos galões de 30 quilos”, diz. 

“O Cropster Origin me ajudou a monitorar a qualidade e como o café estava sendo tratado de acordo com minhas coordenadas e do Marquinho na fazenda enquanto eu não estava presente”, lembra.

“Também foi importante em relação às informações de volumes produzidos em cada processo, volumes perdidos em cada processo, quais processos deram mais certo e quais processos perderam qualidade em determinado período, seja no manuseio do café no pós-colheita, logística, armazenagem, fermentação etc.” 

produtividade e coleta de dados

Na opinião dela, o Cropster Origin contribui para uma maior produtividade, pois possibilita saber por meio dos dados e relatórios como e onde se pode melhorar para produzir mais e melhor, além de acompanhar tudo que está sendo feito na fazenda de qualquer lugar do mundo, ter todos os dados guardados e exigidos por certificadores e tirar relatórios em excel para gestão financeira e pagamento de funcionários. 

“Eu diria que é um caminho sem volta. Uma vez que você começa a coletar dados é iminente o benefício para a fazenda, para a produção e para qualidade da produção, especialmente para produtores que não estão direto na fazenda monitorando o cafezal”, acredita Livia.

“Já mandei relatório de avaliação sensorial do Cropster para alguns clientes que usam o Cropster para torrar. Essa conexão que é incrível: a origem levando informações importantes sobre o café até a ponta.”

cafés especiais

Com as experiências que relatamos, percebemos a importância e os benefícios da coleta de dados organizada. Os resultados foram sentidos na prática. A dica é deixar o caderno mais para receitas, orações e, por que não?, poesias e cartas de amor. E focar os dados em um software que deixe a vida do produtor e da produtora de café mais prática, e a colheita mais produtiva, rastreável e qualificada.

E Lucas traz um aspecto importante: “Ter dados e poder processá-los é libertador. É como aprender a ler. Se você não sabe ler, você só vai aprender o que outra pessoa te ensinar. E só vai aprender o que ela quiser te ensinar, ou a versão que ela quer te ensinar”.

Quando você começa a ler e interpretar (seus próprios dados), começa a entender onde existem oportunidades de melhoria.” 

Créditos: Divulgação Fazenda Alegria (vista aérea/destaque; detalhe de Vinicius Lima e Marcos Fenício Dias fazendo cupping; cupping com vista da mata; torrador de amostras; detalhe do cupping; caneca com café); Divulgação Fazenda São Sebastião (cupping com vista para o terreiro; Marcos e Catarina Kim em cupping; computador com dados dos cafés e detalhe do terreiro); Divulgação Fazenda Venturim (Isaac e Lucas Venturim com sacas e verificando as bombonas de fermentação).

PDG Brasil

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