5 de maio de 2022

A xícara está meio cheia… O que devemos esperar para a safra de café 2022/2023?

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Por Willem Guilherme de Araújo, colunista PDG Brasil.

Em 2022, o Brasil colherá cerca de 56 milhões de sacas de café, conforme dados da Conab. As intempéries climáticas (estiagem prolongada, granizo e geada) interferiram na formação das flores pelas plantas, com redução na quantidade de grãos nas rosetas dos ramos, e o resultado é uma colheita muito aquém do esperado para um ano de bienalidade positiva (safra alta) para o cafeeiro. 

Somam-se a esses fatores climáticos as incertezas do setor para o ano, como a alta estratosférica dos insumos (fertilizantes, combustíveis, energia elétrica etc.), bem como a guerra Rússia-Ucrânia, mercado consumidor de café, que arrasta a Comunidade Europeia e os Estados Unidos para um período de alta da inflação e redução do poder de compra da população dessas regiões. 

safra do café no Brasil

Como será a safra de café no Brasil?

Pois bem, o que o cafeicultor deve esperar da safra que se inicia agora no nosso país?

Creio que o primeiro ponto a ser considerado pelos cafeicultores brasileiros é a informação dos órgãos do setor sobre o mercado atual do café. A ABIC (Associação Brasileira da Indústria do Café) divulgou que em 2021 foram consumidas mais de 21,5 milhões de sacas de café, mantendo o país como maior consumidor do mundo. 

Com o pior período da Covid-19 no Brasil em 2021, não deixa de ser um número a ser comemorado por todos, porque mostra que, apesar da crise econômica gerada pela pandemia, o brasileiro não renunciou ao cafezinho do dia a dia. 

O Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil) informou que, em 2021, foram exportadas mais de 40,6 milhões de sacas, gerando uma receita ao país superior a 6,2 bilhões de dólares. Por fim, a OIC (Organização Internacional do Café) divulgou em seu último relatório que a produção mundial foi de cerca de 167,17 milhões de sacas, frente a um consumo de 170,3 milhões, com alta de 3,3% em relação ao ano anterior, porém com um déficit de 3,128 milhões de sacas. 

Para finalizar, os preços se mantêm em patamares acima dos 210 cents/lbp, com expectativa de manter esses preços, mesmo após o início da colheita no país.

Por outro lado, o cenário das incertezas climáticas para 2022, somado ao preço elevado do trio fertilizantes/combustível/agroquímicos coloca o cafeicultor brasileiro sob pressão, nesse momento em que ele começará a colher os grãos. 

Claro que ainda temos a pandemia de Covid-19 que não foi totalmente debelada em nosso país, e pode afetar os trabalhadores que efetuam a colheita e, com isso, aumentar os custos da produção. Mas qual seria a saída dessa situação?

Não existe uma receita pronta, mágica, que atenda a cada propriedade produtora do país. Mas os exemplos de sucesso de pequenos a grandes produtores servem para mostrar que a boa gestão, aliada à perseverança e ao profissionalismo, podem guiar o cafeicultor por esse momento desafiador para o setor. 

Hoje o cafeicultor dispõe de ferramentas de gestão, no advento da Cafeicultura 4.0, para acompanhar o desempenho de sua atividade diariamente. Os aplicativos para esse fim multiplicaram-se nos últimos anos e oferecem a oportunidade para o cafeicultor saber o custo de cada saca produzida ou o talhão mais produtivo da propriedade. 

Eles podem controlar a aplicação de agroquímicos ou a secagem dos grãos nos secadores, com apenas um toque no telefone móvel ou nos computadores. Mas também podem continuar anotando em planilhas impressas para aferir ao final da safra todas as despesas que tiveram ao longo do ciclo produtivo e, portanto, saber o quanto realmente custa o seu café. 

Soma-se a essa gestão eficiente, o profissionalismo do cafeicultor que é adquirido com a prática diária, a busca de conhecimento e a busca por oportunidades. 

O conhecimento, atualmente, é acessível a todos os cafeicultores, seja via internet ou mesmo presencial, com informações qualificadas gratuitas, como as do PDG Brasil, e o retorno dos treinamentos, feiras e seminários que o aproximam das novas tecnologias e possibilitam uma produção mais eficiente. 

Por representar uma cadeia produtiva muito complexa, cabe ao cafeicultor buscar capacitação nas áreas que mais poderão agregar à sua atividade, como por exemplo, a classificação física e sensorial dos grãos para conhecer as especificidades do seu café; bem como adoção de cuidados no pós-colheita que possam reduzir os pontos críticos que interferem na obtenção grãos sadios.

“Os exemplos de sucesso de pequenos a grandes produtores servem para mostrar que a boa gestão, aliada à perseverança e ao profissionalismo, podem guiar o cafeicultor por esse momento desafiador para o setor.” 

Sempre é bom lembrar que o café é precificado pela sua qualidade da bebida, logo, garantir que os grãos mantenham a qualidade desde a planta até a xícara pode fazer a diferença na comercialização do produto. A partir do café já pronto para a comercialização, a agregação de valor ao produto também pode reduzir as incertezas econômicas do setor em ações como o foco em microtorrefações, cafés especiais e certificações. 

A primeira é uma alternativa para cafeicultores que possuem um acesso ao mercado consumidor, seja via internet ou venda direta ao consumidor. Com isso, conseguem oferecer um produto diferenciado, por um preço mais acessível, porém com remuneração acima do grão verde. 

Já os cafés especiais tiveram um crescimento no país e têm premiado os cafeicultores que acreditaram no potencial dos seus grãos, tornando o Brasil o maior produtor de cafés finos do mundo. Analisados pelo aroma, sabor, acidez, doçura, corpo, entre outros atributos que o tornam um produto diferenciado, atraíram uma fatia do público consumidor que paga um preço justo pelo trabalho investido na produção. E tem atraído também aquele consumidor que deseja conhecer como são produzidos e quem os produz, criando uma modalidade de turismo de experiência, aproximando os cafeicultores desse público que muitas vezes desconhece a realidade de uma propriedade cafeeira. 

As certificações já fazem parte do processo produtivo de muitas propriedades cafeeiras do país, algumas com foco ambiental (Rainforest Alliance, Orgânica), outras de caráter mais social (Fair Trade) ou ainda voltadas para as boas práticas agrícolas e gestão (Certifica Minas Café)… Elas são uma boa alternativa para os cafeicultores diferenciarem o seu produto no mercado, ainda mais com as crescentes exigências dos países importadores por produtos mais sustentáveis e com rastreabilidade, ampliadas com os debates da 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima – COP 21. Cria-se então uma oportunidade de mercado para o café brasileiro, como o mais sustentável do mundo. 

E esta safra de café?

Então o que esperar para essa safra? Primeiro, é fato que a produção não chegará nem perto do número esperado para um ano de bienalidade positiva em nosso país, gerando um déficit no setor que manterá os preços em patamar acima da mínima histórica. 

Logo, o cafeicultor deverá investir todo o tempo necessário para garantir um processo de pós-colheita que resulte em cafés de ótima qualidade para aproveitar a escassez de café finos e o ágio que poderá obter. Em relação aos fertilizantes, nunca uma análise de solo bem feita, o manejo adequado das plantas daninhas e solo foram tão importantes para aproveitar ao máximo os nutrientes que serão alocados. 

O uso de fontes alternativas deve ser analisado com muito critério, bem como os produtos milagrosos que surgem nesses momentos de crise. Compra antecipada de insumos, revisão das máquinas, equipamentos de colheita e secagem, manutenção dos cuidados com a propagação da Covid-19 entre os trabalhadores são algumas dicas que podem minimizar os riscos para esta safra.

Finalmente, creio que a perseverança do nosso cafeicultor, será fundamental para que tenhamos uma safra (embora não a maior), mas a de melhor qualidade e rentabilidade. Porque, afinal, a xícara está meio cheia.

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Créditos: Acervo Willem Guilherme de Araújo.

PDG Brasil

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