12 de janeiro de 2022

Juntos e fortes: o poder do associativismo no café

Compartilhar:

Para o pequeno produtor, o caminho das pedras faz parte do trabalho árduo e diário, de sol a sol, muitas vezes solitário ou concentrado nas mãos de uma pequena rede de apoio familiar. Um trabalho incansável de como manter produção e processos pós-colheita mediante desafios de todo tipo. Mas e o associativismo no café?

Por meio do associativismo, porém, alguns caminhos podem facilitar esses processos, que podem ser amortizados com a cooperação e a união de forças na cafeicultura familiar.

O PDG Brasil conversou com especialistas que trabalham ativamente nessa missão de fortalecer parcerias por meio do cooperativismo na cafeicultura. Não deixe de acompanhar até o final, entendendo um pouco melhor sobre como esse sistema funciona e pode ser benéfico ao pequeno produtor e sua comunidade como um todo.

Você também pode gostar de Como exportar café? Um guia para produtores.

associação de café

O cooperativismo e a cafeicultura familiar

Para o pequeno e médio cafeicultor, não deve ser fácil dar conta de tudo. Considerando ainda quantas variáveis existem no processo do cultivo do café, além do pós-colheita que pode ser ainda mais desafiador.

Por isso, pensar e agir coletivamente pode ser um instrumento importante para se obter maior expressão em todos os âmbitos: social, político, ambiental e econômico.

Associativismo ou cooperativismo é uma estratégia de atuação por parte de diferentes empreendedores da cadeia produtiva para fortalecimento dos seus negócios, muitas vezes sendo a única opção para manter a competitividade da cafeicultura em uma determinada região.

Remar sozinho não é fácil, por isso viemos falar sobre trabalhar de forma conjunta, realizar ações coletivas e unir forças em busca do desenvolvimento. Todo mundo agrega, se beneficia e ninguém solta a mão de ninguém.

É importante reforçar que, antes de qualquer informação sobre benefícios ou coisa assim, é fundamental que se tenha consciência da força da união, e isso começa individualmente, dentro de cada um. Envolve comprometimento de todos, tornando assim a união favorável e saudável aos envolvidos.

Praticar qualquer atividade de maneira coletiva é algo muito antigo, e acontece naturalmente por conta da união de interesses em comum de um determinado grupo com pensamento e necessidades em comum.

Certamente, as cooperativas e associações desempenham um papel fundamental na cadeia produtiva do café, pois são agentes de conhecimento, apoio, disseminação de boas práticas de produção e de desenvolvimento tecnológico, facilitando o acesso de tudo isso ao pequeno produtor.

cooperativa de café

Para quem essa prática é indicada

Segundo Heleno Mariani Gonzalez (consultor em associativismo, cooperação e pequenos negócios), o associativismo é reconhecidamente uma estratégia eficaz para todos os empresários de diversos segmentos (que pode ser, por exemplo, um pequeno produtor), que buscam maior competitividade e expansão de seus negócios. A premissa básica é a evidência da necessidade comum entre os empresários envolvidos.

Para os pequenos produtores, essa estratégia é mais recomendada e utilizada devido às dificuldades de atuação individual em mercados cada vez mais competitivos, como:

  • Pouca escala de produção;
  • Custos operacionais crescentes;
  • Dificuldade de acesso a novos mercados.

Ulisses Ferreira de Oliveira, diretor executivo da Associação dos Produtores dos Cafés da Região Vulcânica, analista sênior da Agência de Desenvolvimento Regional do Leste Paulista e Sul de Minas, além de consultor e facilitador de associações e certificações Agrícolas, acredita que, “além do cafeicultor familiar, a cafeicultora de médio porte, principalmente aquela localizada em áreas montanhosas, pode ser beneficiada com o associativismo, sendo na verdade uma estratégia de sobrevivência.”

“O médio produtor precisa entender que não é grande o suficiente para competir em custos com as grandes plantações, mas também não é pequeno o suficiente para receber os auxílios e benefícios governamentais destinados à agricultura familiar. Nesse cenário, ele precisa se unir a outros produtores para buscar maior competitividade, e eficiência técnica e produtiva.”

No setor produtivo é mais comum de se ver o associativismo, muito embora possa ser aplicado em outros elos da cadeia, como pequenas torrefações e cafeterias. Para isso é importante saber como se unir a uma empresa do seu mesmo ramo de atividade e obter benefícios.

cooperativismo

Não basta se associar, tem que participar

É verdade então que esse sistema pode transformar a vida de um pequeno cafeicultor? Sim, mas é preciso que se crie um espírito associativista entre todos os integrantes. Eles precisam estar igualmente engajados, participando e colaborando para o desenvolvimento do grupo como um todo.

Mas Ulisses reforça essa eficiência principalmente quando se tem um objetivo muito claro do “por quê fazer parte desse grupo irá me trazer mais benefícios do que atuar isoladamente”.

“Focar nesses objetivos e entregar esses resultados é a palavra-chave para se tornar uma associação que transforma vidas. Quando todos compartilham desse entendimento de que somente com a associação vão conseguir atingir tais objetivos e que cada um veja nela uma entidade que traz benefícios, ela então consegue ter forças.”

“Porém, o desafio é mostrar que os benefícios podem ser muito maiores do que apenas o resultado financeiro. Exemplo prático: definindo um objetivo claro e de fácil alcance, um grupo de produtores que deseja ser reconhecido pelo mercado pode criar uma associação e se promover coletivamente, garantindo eficiência em marketing e de recursos.”

As práticas mais comuns do associativismo são:

  • Fortalecimento;
  • Desenvolvimento de sua região local;
  • Compras conjuntas / redução de custos;
  • Negociação coletiva;
  • Vendas conjuntas com melhores preços;
  • Compartilhamento de equipamentos, maquinário, saberes e estrutura física;
  • Beneficiamento, processamento e industrialização de produtos in natura (prática comum no meio rural);
  • Participação no desenvolvimento de pesquisas tecnológicas, tendo acesso facilitado a técnicas, tecnologias e inovações;
  • Melhor poder de barganha para contratação de profissionais especializados;
  • Maior capacidade de investimento;
  • Desenvolvimento de logística com atuação conjunta.
associação cafés região vulcânica

Benefícios econômicos do associativismo no café

É de interesse máximo do pequeno produtor entender que praticar o cooperativismo gera vários retornos econômicos, mas eles não são os únicos. Para Heleno, possibilita uma forma de encarar o mundo onde a proatividade, a empatia e a valorização da coletividade são práticas constantes.

Ulisses lembra sobre a potência das compras coletivas, que aumentam o volume de compra e possibilita maior poder de negociação de valores com fornecedores, e também de negociação nas vendas.

“Com um volume maior, é possível atender mercados que muitas vezes teriam dificuldade de comprar pequenos volumes de uma grande quantidade de produtores, podendo trazer melhores preços.”

Os benefícios econômicos gerados pela prática coletiva são muitos:

  • Redução de custos operacionais;
  • Aumento de produtividade;
  • Melhoria de qualidade (processos e produtos);
  • Agregação de valor aos produtos para pequenos produtores;
  • Acesso a novos mercados.

E facilita também em processos como:

  • Gestão de contratação de pessoas para cuidar de atividades contábeis, financeiras, administrativas;
  • Acesso a profissionais mais especializados que possuem um custo maior;
  • O retorno financeiro graças ao maior acesso a conhecimento e informações sempre impacta na produtividade, qualidade e consequentemente nos preços ou custos de produção;
  • Acesso a recursos graças a editais de organizações governamentais, ou não, de apoio a setores produtivos, geração de renda e fortalecimento de classes.
associativismo no café

Como se tornar um associado

Legalmente falando, uma associação pode ser constituída por duas ou mais pessoas. Mas se pararmos para pensar que uma das características mais importantes em uma associação é a representatividade, que representatividade teria uma associação com duas pessoas?

Por isso, na maioria das vezes, as associações possuem muitas pessoas, mais de 15 ou 20 tranquilamente. Então oficialmente, pode-se considerar um número mínimo de 12 pessoas. Já em uma outra instituição do modelo de associação, que é a cooperativa, é preciso ter no mínimo 20 pessoas.

Talvez neste momento você já esteja interessado em encontrar uma associação ou grupo, mas não sabe por onde começar?

Heleno diz que geralmente as pessoas entram nas associações por indicação:

“São pessoas que têm questões e necessidades em comum, e por isso elas muitas vezes se conhecem. E aí existe o convite e/ou indicação para que as pessoas façam parte. Hoje em dia, pode-se considerar que os empreendedores, e as pessoas no geral, são muito conectadas. Então ficam sabendo dos movimentos que estão acontecendo, de alguns grupos que vão se formando para fazer alguma atuação coletiva.”

“Claro que essas organizações e associações possuem estatutos e regras individuais, possuindo diferentes pré-requisitos para que se faça adesão ao grupo.”

Ulisses informa que um produtor que deseja se associar a uma organização já existente, deve primeiramente saber se os mesmos objetivos que os seus. É importante saber também como ele poderá colaborar e se beneficiar, estando claras essas informações para evitar que se criem falsas expectativas.

O produtor também precisa ter claro em sua mente se terá condições de ser participativo dentro da associação, bem como se ela tem uma gestão democrática e transparente. Por fim, Ulisses recomenda que a produtora ou o produtor procure uma associação em sua região ou município.

“Existem excelentes organizações de produtores em todo o Brasil. Muitas delas não conseguiram atingir seu potencial, pois faltam pessoas engajadas que somem esforços para atingir os objetivos comuns. Se você é um produtor que acredita que pode colaborar para o desenvolvimento de sua região, não deixe de participar e contribuir.”

agricultura familiar

Dicas importantes para a pequena cafeicultora e o pequeno cafeicultor

Agora é hora de tomar nota e se organizar para otimizar ainda mais seus processos e alcançar sucesso a cada ciclo de colheita:

  • Crie ou faça sua adesão a uma Associação na sua região, buscando uma visão sistêmica voltada para a inovação e a coletividade;
  • Trabalhe com a união também entre as associações e assim ganhe escala ainda maior (não faz sentido ter várias associações e todas enfraquecidas);
  • Saiba que aumentar seu volume de produção (área plantada) não vai necessariamente trazer mais renda, principalmente se você não se preocupar com produtividade e qualidade, e se também não tiver controle dos seus custos de produção;
  • Embora a atividade na propriedade lhe consuma muito tempo (até porque na maioria das vezes você tem que fazer tudo na sua propriedade), é preciso dedicar algum tempo à associação e também à qualificação. A gestão do seu tempo e a dedicação em tarefas que lhe tragam retorno é fundamental;
  • Tenha um posicionamento estratégico diante do seu mercado de atuação;
  • Busque aliar fatores econômicos do negócio aos fatores social e ambiental;
  • Cuide de todos os processos internos do seu negócio;
  • Desenvolva continuamente sua rede.
associativismo no café

Lembre-se que apenas pensar na questão financeira traz uma chance de a Associação fracassar. Primeiramente, considere que o associativismo é um movimento social. O grande fator que deve ser visto é a transformação social, o crescimento de cada pessoa juntamente com o crescimento da comunidade.

O simples fato de conectar pessoas, através dos encontros e trocas de ideias e experiências, já é visto como um retorno da associação.

O cooperativismo pode fazer com que o cidadão se desenvolva como ser humano que tem mais oportunidades de ajudar e ser ajudado. Nesse sentido, pode contribuir com a comunidade com ações que vão desde garantia de acesso à saúde, educação de qualidade, ambiente mais saudável como um todo, ou até mesmo apoiar grupos mais vulneráveis.

Quando você dá esse passo a frente rumo à força coletiva não é só por você, seu trabalho, sua lavoura, sua família, mas também pelo sistema que existe ao seu redor, sua possível rede de apoio, e um mundo com um futuro melhor.

Créditos: Josane Bissoli, da Associação das Mulheres Empreendedoras de Vila Pontões / ES (destaque: seleção de cafés no terreiro suspenso; IWCA BRASIL – Aliança Internacional das Mulheres do Café, rede formada por mulheres envolvidas em toda a cadeia do café; sala de cupping conquistada pelo esforço da Associação das Mulheres Empreendedoras de Vila Pontões; cafeicultura familiar); Ulisses Ferreira de Oliveira (Produtores da Associação dos Produtores do Bairro Gabirobal de Andradas – ACAFEG; produtores da região de Poços de Caldas, Campestre, Botelhos, São Sebastião da Grama e Águas da Prata participando SIC graças ao apoio do Sebrae; evento com mais de 100 produtores da Associação da Região Vulcânica; Associações da Agricultura Familiar do Sul de Minas se reúnem para doar cestas de hortifruti a funcionários de hospitais durante pandemia).

PDG Brasil

Quer ler mais artigos como este? Assine a nossa newsletter!

Compartilhar:

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado.

You may use these HTML tags and attributes:

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>