17 de novembro de 2021

Aposta no café. Histórias de quem mudou de carreira para abrir uma cafeteria

Terminar o colégio, passar no vestibular, concluir o ensino superior e trabalhar na área da graduação. Seguir essa trajetória é considerado um sinônimo de sucesso para muitas famílias brasileiras. Porém, isso pode não trazer felicidade para aqueles que abrem mão dos próprios ideais para alcançar esses objetivos.

Neste artigo, o PDG Brasil entrevistou donos de cafeterias de café especial que quebraram esse ciclo e promoveram uma mudança de carreira em busca de realização pessoal. Eles falaram sobre os desafios e as alegrias de abrir um negócio próprio em uma área que, até então, era completamente desconhecida.

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Brasil, um país de consumidores de café

Tomar um cafezinho na rua, seja ele espresso ou coado, é um hábito muito comum entre os brasileiros. Ele pode ocorrer de manhã, no intervalo do trabalho, depois do almoço, numa reunião de negócios ou em um bate-papo com amigos.

Segundo uma cartilha do Sebrae, o estudo do Euromonitor indica que há mais de três mil cafeterias espalhadas pelo país. O número pode superar os 13 mil caso sejam considerados outros estabelecimentos que servem café, como bares, lanchonetes e restaurantes.

Por conta do potencial de público e consumo, investir em uma cafeteria tem sido uma alternativa procurada por quem quer trocar de área de atuação profissional. Para pessoas que já têm uma carreira consolidada no mercado de trabalho, empreender pode ser uma forma de se obter ganhos maiores do que o salário de um barista iniciante.

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Seguindo a profissão dos sonhos

Tatiana da Silva Gomes Rocha, de 34 anos, nasceu e cresceu na zona leste de São Paulo. Ela passou a infância vendo os familiares trabalhando em comércios de bairro. O pai era técnico de manutenção de eletrônicos, o irmão mais velho comandava uma bicicletaria, e a tia tinha uma papelaria. Apesar das referências, ela optou por seguir outro caminho, fazendo um curso técnico de secretariado e se graduando em marketing.

Enquanto isso, Talita de Cássia Borges Castro, também de 34 anos, foi criada em uma família de veterinários. Natural da cidade de Pato de Minas (MG), ela passou a infância cuidando dos animais que eram atendidos na clínica do pai. Mergulhada nesse universo, a mineira não teve outra escolha a não ser estudar medicina veterinária e seguir a carreira que é o sonho de muitas crianças.

Tati, para os mais íntimos, fez diversos tipos de trabalho para se manter na época da faculdade, até conseguir um estágio em um grande banco. Como previsto, ela acabou efetivada na área de marketing com um bom salário e inúmeros benefícios. Envolvida no ambiente corporativo, a então analista precisou assumir um novo estilo para se adaptar. Ela se mudou para perto do emprego, passou a manter os cabelos alisados e loiros e começou a ter hábitos de consumo mais refinados.

Já a família de Talita se mudou para o Distrito Federal. Os pais abriram uma clínica veterinária com pet shop em Brasília, que cresceu até se tornar um hospital veterinário de referência na região. Vendo o sucesso dos negócios, a médica veterinária decidiu ampliar os negócios e abrir uma segunda unidade. Após se especializar em dermatologia, ela deixou a administração do empreendimento e passou a atender em diversas clínicas.

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Sucesso profissional x felicidade

As duas entrevistadas viveram um período de realizações profissionais e bons ganhos financeiros. Tatiana mantinha um padrão de vida confortável e ainda ajudava a família que seguia vivendo em Itaquera. Cursando mestrado na Universidade de Brasília e com a agenda bastante concorrida, Talita faturava alto com as consultas particulares, possibilitando que tirasse férias internacionais todos os anos.

Porém, nem tudo é um mar de rosas. Trabalhar com o marketing de um banco privado não permitia que Tatiana seguisse seus ideais. “No universo corporativo, você precisa concordar com a cultura e os valores para dar o seu melhor. Tem coisas que você nem sempre concorda”, lamentou. Em meio a uma crise de identidade, ela encarou um novo drama familiar que gerou uma reflexão sobre prioridades. A perda do pai na infância e a morte precoce do irmão mais velho se somaram com internação do irmão caçula em um hospital psiquiátrico em 2014.

Talita escolheu seguir a mesma profissão dos parentes para ajudar os animais. Porém, ao se tornar dermatologista veterinária, ela passou a lidar com clientes imersos em um mundo de luxo e vaidade. O ego das pessoas do mestrado na UnB também trouxe abalos psicológicos. Diagnosticada com depressão e burnout, ela viveu um episódio em 2018 que aumentou ainda mais o desejo de mudança de carreira. “Quando estava saindo do consultório, um cliente blogueiro fez várias postagens e foi super engraçado. Mas ele tratou muito mal uma mãe que estava amamentando no chão e pedindo dinheiro na porta do hospital.” E isso a impactou.

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Encontrando um novo caminho

Entusiastas do café especial há muitos anos, as duas decidiram transformar o que era um lazer em ganha-pão. A ex-analista de marketing viu ressurgir a paixão pelo comércio e, motivada por um bootcamp de startups, percebeu que não havia cafeterias na Vila Mariana, onde morava. Esse conjunto de fatores deu origem ao Clemente Café, em meados de 2016. “Eu tinha poucas economias e não podia arriscar tudo”, confessou Tatiana. Por isso, ela planejou um negócio de pequeno porte, que pudesse ser aberto apenas com recursos próprios. O primeiro ponto tinha cerca de 9 m².

O Clê, como foi carinhosamente apelidado, acabou crescendo em um ritmo mais rápido do que o esperado. Em cerca de quatro meses de funcionamento, a capacidade de atendimento já estava no limite. A agora empresária, que trabalhava sozinha, viu a necessidade de contar com o reforço de outros baristas. Entusiasmada com os resultados de 2018, que geraram rendimentos semelhantes ao da época do banco, Tati sentiu a necessidade de dar um passo adiante e abriu um segundo ponto em maio do ano seguinte, na região da Avenida Paulista.

Em 2019, Talita seguia infeliz com a vida profissional em Brasília, mas se inspirou em um irmão que é dono de uma rede de sorveterias, para enxergar no empreendedorismo uma alternativa de mudança de carreira. Ela relembrou que desde criança gostava de vender pães, hortaliças e geladinhos para ganhar o próprio dinheiro. Após analisar alternativas, ela abriu o Jacket Cafés Especiais com o marido, que é servidor público, como sócio. O casal contou com um financiamento bancário e usou o próprio apartamento como garantia.

No início, a cafeteria brasiliense com cerca de 30 m² de salão contava apenas com a ex-veterinária na operação do bar. Servindo um menu extravagante e apostando e em ambiente descolado, o negócio vingou e possibilitou a implementação de uma torrefação própria já em 2020. A compra de cafés com os produtores e a torra dos grãos acabaram ficando a cargo do esposo agrônomo de Talita, que fez cursos no Coffee Lab, na capital paulista.

Susto com a crise mundial

As duas empreendedoras seguiam com o planejamento até que a pandemia do novo coronavírus se instaurou no planeta. Com a queda brusca no faturamento, Tati não viu outra alternativa a não ser fechar a segunda unidade do Clemente Café. Ela também precisou dispensar parte da equipe e encontrar novas formas de venda, como as retiradas e o delivery.

O mesmo fez Talita, que apostou no serviço de assinatura de café e reformulou a operação do Jacket Cafés Especiais. Com isso, o volume de café torrado por mês chegou a 40 kg. Depois do nascimento da filha, ela teve que se afastar e contratar uma gerente e novos baristas. Isso a fez perceber que a importância de delegar funções e focar no setor administrativo e de recursos humanos. Essa lição já havia sido aprendida há algum tempo pela colega paulistana.

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Uma história recente

Marcelo Zucchi, de 32 anos, é natural de Paraí, no interior do Rio Grande do Sul, mas sempre sonhou em se mudar para uma grande cidade. Filho de uma funcionária pública e de um pedreiro, encontrou na faculdade de fotografia a chance de morar em Canoas. Acolhido pelos tios, conseguiu concluir a graduação em uma instituição particular em 2015. Após ser contratado como fotógrafo por um estúdio, o jovem percebeu que teria que trabalhar por conta própria para ganhar mais.

Ainda atuando no que seria a profissão dos sonhos, Marcelo percebeu que não se sentia mais realizado. Como já era empreendedor, a mudança de carreira para a área do design thinking acabou sendo mais tranquila. Uma nova inquietação fez surgir a necessidade de mudar outro local. Nessa época, Zucchi recebeu a proposta de morar em São Paulo com uma amiga gaúcha.

A princípio, o fotógrafo e designer não pensava em empreender com café especial, mesmo tendo prazer em preparar a bebida para as outras pessoas. Por outro lado, esse era um plano da colega de apartamento. Laiz Alessandretti, de 33 anos, se formou em gastronomia em Buenos Aires, na Argentina, e atuou em diversos lugares na área de confeitaria. Ela também já teve uma cafeteria com a mãe em Paraí e trabalhou na cozinha do Pato Rei logo que chegou à capital paulista.

Morando na região da Bela Vista, a dupla era cliente da filial do Clemente Café e ficou triste com o encerramento das atividades. Laiz e Marcelo conversaram com Tatiana sobre o ponto de 12 m² e encontraram uma oportunidade de abrir um negócio próprio. A Bah! Café acabou surgindo de maneira despretensiosa e começou a operar cerca de dois meses após o acerto. Os sócios utilizaram as próprias economias e contaram com empréstimos familiares.

Sobre a inauguração do estabelecimento dos empreendedores gaúchos em junho de 2021, Tati afirma que ficou contente com o fato de a cultura do café especial ter permanecido no bairro. A reorganização financeira e o valor da venda do ponto geraram ainda mais frutos. A empresária conseguiu ocupar o imóvel vizinho da matriz e oferecer aos clientes um salão mais amplo e confortável para os clientes. Nessa configuração, o consumo mensal é de cerca de 60 kg de café.

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Lições que a cafeteria ensinou

Os três empreendedores que se arriscaram em uma área de atuação completamente diferente passaram por um momento de questionamento profissional e tiveram coragem de sair da inércia para virar o jogo. Por conta disso, compartilharam alguns ensinamentos que podem ajudar quem tem o desejo de abrir uma cafeteria.

Em comum, nenhum atuou previamente como barista nem tinha experiência com atendimento ao público no setor de alimentação. Tatiana e Talita disseram que os proprietários devem focar mais em cursos de planejamento financeiro, administração de negócios, empreendedorismo e gestão de pessoas do que em treinamentos de formação em barismo, extração de café ou sensorial. Entre as indicações da dupla estão os serviços oferecidos pelo Sebrae.

Já Marcelo ainda não obteve grandes lucros com a Bah! Café, cujo consumo mensal médio de café é de 25 kg/mês, por isso segue com as profissões paralelas no tempo livre. Ele conta que combinou com Laiz retiradas simbólicas de caráter motivacional para que ambos não desanimem. “Depois de ter tanto trabalho, não receber nada iria ser muito sofrido”, ressaltou. Ele também reconheceu que ter uma sócia que já era do ramo foi primordial para ter topado a empreitada.

Os entrevistados ainda disseram que é preciso entender que gerir uma cafeteria é muito diferente da visão romantizada que os consumidores têm. O choque de realidade, apesar de desanimador, serviu para o amadurecimento. O excesso de trabalho, o desafio de empreender e do atendimento aos clientes e o tempo necessário para conseguir faturar mais vêm junto com a cafeteria. 

Como novato, Zucchi considera um grande acerto ter criado uma identidade autêntica para a cafeteria e definido pilares sólidos que definem o negócio.

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Sobre a longevidade do Clemente Café, Tati revela que um dos segredos é acompanhar de perto os números e as planilhas, além de planejamentos com estimativas realistas. 

Ela também chamou a atenção sobre a importância de equilibrar as vidas pessoal e profissional para manter a saúde mental. “Você não pode abrir um negócio para ter problemas na pessoa física. Nenhum CPF tem que se sacrificar por causa de um CNPJ”, concluiu.

Talita admitiu que pensou em encerrar as atividades do Jacket Cafés Especiais durante a pandemia. Porém, fazer parte de um grupo de empresários fez ela e o marido perceberem que todos passavam por um momento delicado. A ex-veterinária afirmou que passou a ser muito mais realizada depois que abriu uma cafeteria. Mesmo que a loja feche, ela não pretende retomar a antiga carreira. “Acho que vou virar confeiteira, virar barista de algum lugar, trabalhar com torrefação”, brincou a entrevistada.

Créditos: Akio Uemura, Marcelo Zucchi, Talita Borges e Tatiana Rocha.

PDG Brasil

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