20 de outubro de 2021

Descubra os Robustas Amazônicos, os cafés canéforas finos do norte do Brasil

Muitas variedades da espécie arábica são mundialmente conhecidas dentre os cafés especiais por seus atributos e alta qualidade. Mas, nos últimos anos, o movimento dos canéforas finos ganhou corpo. Eles têm ocupado mais espaço no mercado como cafés de alta categoria e desafiado a reputação – errônea – de que só ofereceriam uma bebida inferior. 

No Norte do país, a variedade Robusta se tornou a grande representante da cafeicultura local com um trabalho focado na qualidade e no reconhecimento de seus sabores característicos. 

Hoje, os Robustas Amazônicos são degustados no Brasil e em vários países. O PDG Brasil conversou com produtores, pesquisadores e profissionais do café para saber mais sobre esse café e entender por que ele pode ser interessante para cafeterias e torrefações. Continue conosco e saiba mais.

Você também pode gostar de ler nosso mais recente artigo sobre as diferenças entre cafés arábicas e canéforas.

cafezal rondônia

O café de Rondônia

Rondônia tem um forte vínculo social, cultural e econômico com o café. É responsável por 97% da produção na Região Norte, com mais de 2,2 milhões de sacas de café, segundo a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento). Cerca de 17 mil produtores familiares fazem dele o 5º maior estado cafeicultor do Brasil e o segundo colocado na produção de canéfora. 

O pesquisador da Embrapa Rondônia Enrique Alves conta que no início da década de 70 o programa federal “Integrar para não Entregar” fez com que famílias de outros estados recebessem incentivos para emigrar e produzir na região amazônica. A maior parte dos novos moradores era de mineiros, paranaenses e capixabas, e o café foi levado na bagagem.

“No início eles trouxeram arábica e depois os capixabas, pela sua tradição, trouxeram canéfora, que se adaptou muito mais nessas condições de temperaturas altas, maior pluviosidade, solos férteis e ainda jovens”, diz Enrique.

A variedade trazida do Espírito Santo à época foi o Conilon. Certo tempo depois, o pesquisador Wilson Veneziano, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), trouxe uma coleção de clones que eram em sua maior parte de Robusta. Com a distribuição de mudas entre os produtores, houve uma hibridização natural, em que as características de Robusta e Conilon se misturaram na fecundação cruzada obrigatória. “Então a gente tem uma cafeicultura híbrida, mas a gente chama [o café daqui de] Robusta Amazônico porque as características desta planta têm a predominância da genética do robusta aqui”, explica Enrique.  

Ele esclarece: “No Espírito Santo também houve hibridação, mas lá as condições climáticas e a pressão de seleção foram diferentes daqui, e lá o conilon predominou. A grande maioria [dos cafés canéfora brasileiros] é de híbridos, e estudos demonstraram que tanto o robusta aqui quanto conilon daqui são diferentes do robusta e do conilon do Espírito Santo”.

florada robustas

Café de Procedência

Este foi um dos pontos de partida para que se pensasse em uma Indicação Geográfica (IG) de cafés para os Robustas Amazônicos. Segundo Enrique, a combinação do trabalho de seleção das plantas por produtores e pela Embrapa dentro do ambiente amazônico, junto com as características da forma de produção resultou na diferenciação dos robustas amazônicos. 

“Se há um ambiente único em termos de solo, clima, temperatura etc., se há uma combinação genética que também foi única e, nestas mais de quatro décadas de evolução, esse material se distingue, então temos um material que pode ser reconhecido pela IG”, diz Enrique.

E foi o que aconteceu. Em 1º de junho de 2021 Rondônia recebeu a primeira Indicação Geográfica do tipo Denominação de Origem (DO) para canéfora sustentável do mundo. A certificação é para a DO Matas de Rondônia, uma região que cobre 15 municípios. Eles estão reunidos na Caferon, Associação dos Produtores de Café da Região Matas de Rondônia, que integra mais de dez mil famílias produtoras com média de quatro hectares por cada propriedade. Elas são responsáveis por mais de 80% da produção de café do estado.

robustas amazônicos

Os Robustas Amazônicos e o olhar para a qualidade

Enrique Alves conta que o progresso de tecnologias e práticas de plantio clonal, seleção, melhorias na adubação e irrigação fizeram que a cafeicultura local reduzisse a pressão sobre a floresta. Além disso, as melhorias em pesquisa, desenvolvimento e tecnologia na última década também permitiram que o trabalho com o robusta de Rondônia se direcionasse à qualidade.

Poliana Perrut é produtora de café, engenheira agrônoma, extensionista do SENAR em Rondônia e uma das lideranças locais da IWCA, Aliança Internacional das Mulheres do Café. Ela conta que até o início da década de 2010 ainda havia descrença e desconfiança dos produtores acerca da qualidade do robusta da região. Mas concursos a partir de 2015 ajudaram a mudar esse cenário. “De lá pra cá as instituições se uniram para falar de qualidade.” A própria Poliana foi a primeira mulher a vencer o Concurso de Qualidade e Sustentabilidade do Café de Rondônia (Concafé) de 2019 com seu café robusta.

Os produtores então se tornaram mais receptivos a novas abordagens. Métodos de processamento mais modernos, assim como modalidades de fermentações controladas vêm sendo adotadas e revelando novos perfis entre os robustas amazônicos.

Deigson Mendes Bento é produtor no Café Don Bento. A família dele atua no café há quase 40 anos, mas o foco em qualidade começou há seis e se tornou um caminho sem volta que os permitiram ser tetracampeões no Concafé. “Hoje 30% da produção é de cafés finos, gourmets e especiais e a meta é chegar a 60%. Nós trabalhamos com fermentação, e ela leva mais sabores para o robusta”, afirma Deigson. 

Enrique Alves explica que a fermentação controlada e bem conduzida combina bem com o Robusta Amazônico, por agregar uma acidez que não é tão comum no canéfora e que deixa a bebida muito balanceada.

preparo de café

O que os Robustas Amazônicos podem oferecer na xícara

Liane Dias é curadora de cafés e proprietária da loja Bem Cafeinado, em Belém, no Pará. Ela conta ter ficado impressionada com o que sentiu ao provar Robustas Amazônicos pela primeira vez, em 2019. “Ele veio mais rústico e com boa potência, mas ao mesmo tempo muito saboroso e frutado. Me lembrou muito o chocolate rústico da Amazônia. Ele me remeteu a essa brasilidade e originalidade”, diz. 

O pesquisador Enrique Alves explica que os canéforas finos têm algumas características predominantes, como corpo médio a alto, sensação aveludada de boca e doçura alta, mas que apresentam uma variedade de perfis. Liane conta que já percebeu uma grande diversidade de aromas, sendo uma boa opção para quem busca cafés diferenciados. 

“Há um sensorial da fermentação que brilha, traz complexidade e é muito fácil de sentir um amadeirado positivo, notas de frutas secas, achocolatado e licoroso, quase um bombom com licor. Traz uma acidez mais complexa e é uma bebida limpa.” Ela disse também já ter percebido notas de frutas típicas da região amazônica, como o taperebá e o muruci, o que daria ao café uma identificação da origem.

Juan Travain, produtor e presidente da Caferon, afirma que também já recebeu feedbacks de provadores e compradores que sinalizam atributos locais. Segundo ele conta, as “assinaturas” do robusta amazônico são de nibs de cacau e frutados, com sabores que vão de damasco a frutas secas. Profissionais do café também já relataram sentir notas de chocolate, avelã, frutas vermelhas, maçã, doce de leite, ameixa seca e alcoólicos como uísque e rum. 

Entre os próximos passos que produtores e pesquisadores traçam no desenvolvimento e posicionamento dos robustas finos no mercado está o lançamento da roda de aromas e sabores dos Robustas Amazônicos, que está sendo planejada pela Embrapa em parceria com a ABDI – Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial.

Enrique Alves diz que a pesquisa também foca na melhoria dos processos pós-colheita e no conhecimento do perfil desses cafés. “A variabilidade genética dentro do grupo canéfora é muito maior que no arábica, pela fecundação cruzada. Aí você junta isso com a variabilidade de ambiente e de processos, então é uma diversidade imensa com perfis sensoriais muito distintos”, analisa.

robusta torrando

Por que colocar Robustas Amazônicos no portfólio

De acordo com a Caferon, a maior parte da produção de robustas finos de Rondônia vai pra fora do país. Mas a associação trabalha em estratégias para ampliar as vendas no mercado interno, como a criação de hubs logísticos para a distribuição dos cafés e a conquista de diferentes públicos.

Um dos grupos com bom potencial de apreciar os Robustas Amazônicos é quem está iniciando o consumo de café. Segundo Poliana Perrut, esse cliente não teria visões pré-concebidas sobre o produto. “Eles não estão habituados a tomar café e, quando provam, percebem que o canéfora é bom.” 

Liane Dias complementa que os robustas finos podem ser atraentes também para os clientes que buscam sabores exóticos. Ainda segundo ela, os atributos desses cafés tendem a perdurar por mais tempo após a torra: “estou falando de quatro, seis meses bebendo bem, com características de aroma, doçura e acidez preservadas”, afirma. 

O produtor Deigson Bento ressalta que quem leva o Robusta Amazônico pode ter algo único em sua prateleira. “São sabores que só existem aqui na Amazônia. A gente produz café pensando na sustentabilidade ambiental, então vale a pena experimentá-lo sabendo de onde ele veio e dessa preocupação que a gente tem”, opina. 

E Juan emenda: “a cafeteria que começa a trabalhar com os robustas finos traz algo novo a seu cardápio. O cliente vai ver que o estabelecimento não fica só num certo nicho de regiões produtoras mais conhecidas”.

café canéfora

No universo da especialidade, já se sabe que cada café é único, e que a variedade de grãos de qualidade é ainda maior a cada dia, com os avanços em pesquisa e melhoramento. O mercado de canéforas finos vem para somar e diversificar a oferta, dando a oportunidade para que profissionais e consumidores tenham novas experiências com esses cafés.

Com boa produtividade, reconhecimento da qualidade de origem e da variedade de perfis – e muito ainda a ser descoberto pela ciência – os Robustas Amazônicos devem conquistar novas xícaras e mais espaço nas prateleiras Brasil afora.

Gostou? Então leia também nosso guia básico de como torrar cafés robustas.

Crédito: Ana Paula Rosas.

Observação: A repórter Ana Paula Rosas/PDG Brasil viajou a convite da 1ª Expedição Robustas Amazônicos, organizada pela Caferon e pelo COFFEA Trips.

PDG Brasil

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