13 de outubro de 2021

Como o café pode transformar vidas

O Brasil é um país de dimensões continentais e grandes desigualdades. Nas capitais e em cidades do interior, moradores da periferia crescem com grandes dificuldades e poucas perspectivas na vida. Será que há alguma alternativa de mudar essa realidade? Sim, o café pode transformar vidas.

O café especial tem oferecido por meio do barismo novas oportunidades para pessoas que já estavam perdendo a esperança. O PDG Brasil ouviu dois jovens que se encontraram na profissão de barista e o idealizador de um dos principais projetos sociais da área no país. Siga lendo para saber o que contaram. 

Você também pode gostar de ler nosso artigo de como iniciativas do café podem ajudar a salvar vidas.

café ajuda a mudar vidas

Falta de acesso, de perspectiva e de sonhos 

O ciclo da pobreza é uma dura realidade brasileira. Famílias de baixa renda acabam obrigadas a viver em regiões periféricas e áreas de risco. Muitos jovens que crescem nesses locais não têm acesso a educação, lazer e serviços de saúde. 

A realidade descrita acima é a mesma relatada por Paulo Gabriel Maciel da Silva. O rapaz de 25 anos nasceu, cresceu e sempre morou no mesmo endereço no Grajaú. O bairro do extremo sul da capital paulista é conhecido pelos altos índices de criminalidade.

Paulinho, como é conhecido, sofreu com o abandono do pai aos 12 anos. Ao sair de casa, o pai, que era provedor, deixou a família (mãe e quatro filhos) em uma situação financeira bastante complicada. Revoltado com a própria situação e sem perspectiva de uma transformação social, ele abandonou os estudos aos 14 anos e se envolveu em crimes. “Aqui no Grajaú as coisas são muito complicadas. As coisas ruins são muito presentes e rondam os mais vulneráveis”, lamentou.

Ronaro Soares dos Santos não teve uma infância muito diferente. O mineiro de 27 anos foi criado pela avó com simplicidade no município de Contagem (MG). Ele nunca conheceu o pai e ficou órfão de mãe aos seis anos.

A avó, Ernestina Soares da Silva, viveu em situação de rua até os 16 anos e viu a vida começar a melhorar ao ser adotada. Já adulta, passou a cuidar de crianças do bairro para garantir o próprio sustento. Sem alternativa, delegava ao neto as tarefas domésticas.

“Quando eu era criança não sonhava em seguir uma profissão específica. As pessoas ao meu redor apenas trabalhavam para sobreviver. Todo mundo estava no corre”, conta Ronaro.

A visão de Ronaro começou a mudar com um curso de menor aprendiz no Senac aos 14 anos. Foi a primeira vez que Rô deixou o bairro para ir ao centro da cidade e ter contato com outros perfis de pessoas. Ele também começou a trabalhar na área administrativa de uma empresa.

café pode transformar vidas

Realidade desanimadora

“Como muitos jovens da periferia de São Paulo, acabei me envolvendo com o crime. As drogas são um problema muito sério por aqui”, conta Paulo. Enquanto a mãe fazia bicos de segurança, o então adolescente foi apreendido e somou duas passagens pela Fundação Casa (instituição vinculada ao Governo do Estado de São Paulo, responsável por aplicar as medidas socioeducativas de internação e semiliberdade de jovens de 12 a 21 anos, a antiga Febem). 

Na segunda internação, aos 17 anos, passou por uma situação que o fez refletir seriamente sobre a vida. Maria Rita Maciel visitou o filho durante toda a passagem pela instituição. Porém, a primeira visita foi bastante marcante. O encontro foi no Dia das Mães. Arrependido, Paulinho prometeu mudar. Ele também queria honrar a memória do irmão deficiente que falecera precocemente.

Em Minas Gerais, Ronaro também passou por uma situação difícil: a avó faleceu um ano antes de ele completar a maioridade. O falecimento desestruturou a família e o jovem viveu em condições precárias até ser adotado aos 21 anos. Os pais adotivos deram estrutura para que ele voltasse a acreditar em outro futuro.

projeto social barista

Mudança de vida

Com o afrouxamento da medida socioeducativa, Paulo Gabriel passou a fazer todos os cursos oferecidos pelas assistentes sociais em busca de uma transformação social. Entre eles, aceitou a proposta de fazer parte da primeira turma do curso de barismo do Fazedores de Café, um projeto social da rede de cafeterias Sofá Café.

Mesmo tendo estudado panificação e confeitaria, ele não tinha noção do que se tratava o curso. Paulinho se surpreendeu com a complexidade do mercado do café especial e se alegrou ao preparar bebidas para outras pessoas. Os conhecimentos também aumentaram o interesse de Paulinho na escola onde cursava o ensino médio.

O contato inicial de Ronaro com a profissão de barista foi em 2019 ao se mudar para São Paulo para estudar Administração. Indicado por um amigo, ele começou a trabalhar no setor administrativo de uma cafeteria, que também possui torrefação e centro de treinamento.  

O interesse do universitário pela segunda bebida mais consumida do Brasil surgiu após o convite da cafeteria para visitar uma fazenda. Entusiasmado, começou a ajudar na operação e participou dos cursos de formação oferecidos pela empresa, contando com a experiente especialista em café Marcia Yoko como mentora. Ao relembrar o primeiro cupping, Ronaro conta que apenas fingiu costume, porque não identificou nenhum sensorial.

ronaro soares

A transformação social

Tendo como exemplo as carreiras da irmã e dos primos da família adotiva, Ronaro buscava uma profissão na qual pudesse ter sucesso e qualidade de vida. Após ser escalado para ministrar cursos e workshops, ele se encontrou como barista e passou a buscar cada vez mais certificações. 

A empreitada deu frutos. Hoje empregado como barista e responsável pelo treinamento da equipe da Prime Coffee, o entrevistado conquistou a independência financeira e o reconhecimento profissional que tanto buscava. “O barismo pode ser uma ferramenta de transformação social. Essa profissão me mudou. Através do café conheci pessoas que contribuíram muito com minha evolução”, concluiu.

Com Paulinho, a história não foi diferente. No início, ele achou as bebidas com café especial amargas. Mas, com o tempo, o jovem passou a apreciar um bom espresso e a complexidade que ele pode oferecer. Bastante aplicado, concluiu o curso no Fazedores de Café já empregado pelo Octavio Café como barman. Depois, foi promovido a barista e a chefe de bar, ganhando ainda um curso de torra da empresa.

Após uma breve passagem pelo Coffee Lab, Paulo Gabriel retornou ao Sofá Café como barista, mestre de torra e coordenador do Fazedores de Café, o projeto que o capacitou. Na ocasião, ele também finalizava a graduação em gastronomia. O morador do Grajaú ainda fundou a cafeteria e torrefação Catarina Coffee and Love. Recentemente, ele se desfez da sociedade para focar em outros projetos profissionais.

fazedores de café

Café pode transformar vidas

Diego Gonzales se formou em Engenharia Florestal na USP de Piracicaba. Educado apenas na rede pública, ele sempre se sentiu em dívida com a sociedade. Depois de trabalhar em grandes empresas, o andreense decidiu empreender no ramo do café especial abrindo o Sofá Café em 2011.

Durante um voo, Diego assistiu um documentário sobre a marca norte-americana “Tom Shoes” que o inspirou a criar o Fazedores de Café. Ele entendeu que os jovens em situação de vulnerabilidade social necessitavam de um grande suporte para que pudessem ser beneficiados pela transformação social.

Para oferecer a melhor formação possível aos alunos, ele procurou parceiros que viabilizassem o projeto. As aulas gratuitas são ministradas voluntariamente por profissionais renomados de diversas áreas, enquanto o Sofá Café arca com os custos de alimentação e transporte. Além de quem cumpre medida socioeducativa, o Fazedores de Café também atende refugiados.

Paulinho comanda as novas turmas e, certamente, é grande inspiração para os alunos que buscam uma oportunidade de trabalho formal. Até o momento, ele formou 22 dos 40 alunos que já passaram pelo projeto. O Fazedores de Café tem um alto índice de empregabilidade. Os novos baristas que se destacam acabam sendo contratados pelo Sofá Café ou pelas cafeterias nas quais fizeram estágio e mostram que o café pode transformar vidas.

Apesar de ter passado por inúmeras dificuldades, Ronaro também decidiu retribuir as oportunidades que recebeu compartilhando o conhecimento que vem acumulando. O instrutor de barismo ministra a disciplina “Café” na escola Gastronomia Periférica, um negócio social criado pelo chef de cozinha Edson Leite e pela psicóloga Adélia Rodrigues. As turmas online têm 60 alunos.

Paulo Gabriel conta que as vagas de emprego foram afetadas pela crise econômica provocada pela pandemia. Mas, mesmo com o fechamento de cafeterias, recém-formados ainda conseguem trabalho em outros estabelecimentos que servem café, como bares, restaurantes, lanchonetes e hotéis. Ele também relata casos de contratação em torrefações e empresas de produtos e serviços.

Em São Paulo, o salário inicial de barista parte de cerca de R$1.200,00 e aumenta de acordo com a experiência do profissional. Em estabelecimentos do setor de alimentação, a renda pode ser reforçada pela caixinha deixada pelos clientes. Em alguns locais, a gratificação chega a mais de 50% do valor do salário fixo.

Os projetos sociais envolvendo café especial e barismo são realmente uma ferramenta de transformação social. O café pode transformar vidas. Rô Soares conta: “Hoje, moro no meu apartamento, pago minhas contas e compro minhas coisas. Tudo isso graças ao café, que mudou minha vida em todos os aspectos”. 

“É preciso entender o contexto onde as pessoas estão inseridas. Não é porque ela não quer, é porque não chegou para ela essa oportunidade”, conclui.

Diego sonha com o dia em que o Fazedores de Café se torne um empreendimento social autossuficiente. Paulo espera que o projeto consiga formar ainda mais alunos e seja replicado em outros lugares do Brasil e do mundo. Ao ser questionada como o barismo melhorou a realidade do filho, dona Maria Rita respondeu “os tênis deles eram rasgados, as camisetas eram velhas e eu não podia nem ajudar a pagar a faculdade. O café ajudou ele a conquistar tudo. Me orgulho muito”, concluiu a emocionada mãe de Paulinho.

café pode transformar vidas

Há muitos jovens em situação vulnerável e sem perspectiva profissional. Por outro lado, o mercado de café precisa de profissionais qualificados para trabalhar com o produto em diversos setores, sejam cafeterias, restaurantes, bares, hotéis ou mesmo em torrefações ou na indústria. 

Exemplos como o de Paulo Gabriel (na foto, à dir.) e Ronaro Soares (na foto, à esq.) mostram que é possível oferecer formação gratuitamente e, com isso, abrir novas possibilidades na vida desses jovens. Empresários como Diego Gonzalez, do Sofá Café, e Edson Leite e Adélia Rodrigues, do Gastronomia Periférica, também acreditam que oferecer essas oportunidades é promover o início de uma nova jornada na vida desses jovens. Sim, o café pode transformar vidas. Já é hora de outros empresários e empresárias do Brasil se sensibilizarem à questão e fortalecerem esse ciclo do bem.   

Créditos: Ronaro Soares, Paulo Gabriel, Fazedores de Café e Silvana Melo Akita (barista com xícara na mão).

PDG Brasil

Quer ler mais artigos como este?  Assine a nossa newsletter!