28 de setembro de 2021

O que é Cafeicultura Agroecológica?

ESPECIAL CARBONO E REGENERAÇÃO PDG BRASIL*

Geadas, secas, solos sem vida. A produtora e o produtor de café têm se deparado a cada safra com situações mais desafiadoras, seja pelo clima, pela localização ou mesmo pelo uso excessivo de agrotóxicos. Buscar sistemas de manejo alternativos, como a cafeicultura agroecológica, tem sido uma saída interessante para alguns cafeicultores.  

De modo geral, no cultivo agroecológico é preciso ter muito cuidado, e a rastreabilidade é um fator obrigatório. O processo de colheita e beneficiamento devem ser registrados e passam por processos de auditoria ou certificação participativa, pelo menos no caso do Brasil.

Mas, na prática, o que é e o que representa a cafeicultura agroecológica? O que é preciso fazer para viabilizar essa transição? E como a questão do carbono se destaca nesse sistema?

A fim de entender melhor sobre os processos agroecológicos e agroflorestais no plantio de café, o PDG Brasil conversou com quem viveu na pele essa transição e já sabe o caminho das pedras. Siga para saber o que eles e elas disseram.

Você também pode gostar de O que é café com carbono negativo?

felipe croce faf

Afinal, o que é essa tal Cafeicultura Agroecológica?

Felipe Croce, co-fundador da FAF Coffees (Fazenda Ambiental Fortaleza), localizada na região de Mococa (SP), explica o que significa esse termo: “a Agroecologia é uma ciência que usa a natureza para conduzir um sistema com mais biodiversidade, vida no solo e fixação de nutrientes importantes para uma troca saudável entre as plantas”. 

“E não são duas monoculturas juntas, mas sim o equilíbrio que vem de uma seleção cautelosa de árvores e plantas, com espaçamentos estudados para um retorno eficiente e produtivo.”

Quando se fala de manejo de café, é interessante pensar no uso de árvores e biodiversidade. “O cafeeiro é uma planta natural de sub-bosque, que agradece quando tem uma sombra”, diz Felipe. 

E a lavoura não precisa já nascer agroecológica. Conversamos também com quem já fez a transição do cultivo convencional de café para o sistema agroecológico.

É o caso de Adriane Freddi dos Santos e Valmor Oliveira dos Santos Filho, proprietários da Fazenda Campo Místico, sediada em Bueno Brandão, no Sul de Minas (MG). Valmor conta que a experiência na Campo Místico conversa bastante com as definições de Douglas e de Felipe.

“É um termo que para mim se mistura com o ‘regenerativo’ e o ‘sustentável’. Eles se fundem em um mesmo objetivo, sendo um trabalho que utiliza a maior quantidade possível de recursos próximos, bem como os conhecimentos regionais aliados a novos conhecimentos técnicos.”

“A agricultura agroecológica visa a manutenção da família na propriedade, que leva a uma liberdade financeira e social, considerando também a participação na movimentação da economia local.”

Douglas Alvaristo Fernandes, especialista em Agroecologia e tecnólogo em Aquicultura, traz uma visão mais técnica sobre a Cafeicultura Agroecológica. “É a produção de café que atende aos requisitos mínimos exigidos pela lei 10.831, de 23 de dezembro de 2003 [que regulamenta agricultura nos sistemas ‘ecológico, biodinâmico, natural, regenerativo, biológico, agroecológicos, permacultura’], e normativos”, conta. 

“Também é a agricultura integrada a uma escola alternativa que surgiu na América Latina em meados de 1970, sendo nativa dessa região, diferente daquilo que até então vinha sendo feito, que é importar tecnologias e métodos de outras partes do mundo.”

“Essa escola atende questões importantes para nosso território, como a defesa das comunidades tradicionais. Também envolve um ‘jeito de ser, viver e produzir’ para além de questões comerciais e/ou mercantis, considerando o acesso à terra, água, interação com a cidade de maneira harmoniosa, repartição justa das riquezas.”

café com sombreamento

Cafeicultura Agroecológica X Cafeicultura Biodinâmica

A agroecologia e a biodinâmica são duas escolas de agricultura alternativa que possuem peculiaridades únicas. Douglas esclarece sobre suas origens e princípios básicos, e como duas figuras à frente do seu tempo se destacaram, permitindo a quebra de muitos paradigmas:

“A agroecologia tem como referência o trabalho da agrônoma austríaca Ana Maria Primavesi. Ana desenvolveu conceitos para a compreensão do solo como organismo vivo e que revisaram as organizações sociais do campo, unindo os estudiosos e a comunidade rural em torno de temas para além da produção agrícola”, conta Douglas. 

“Já na Biodinâmica o filósofo austríaco Rudolf Steiner trouxe uma condição nova (ou não tão nova, pensando que resgata muito do que nossos ancestrais aplicavam) de compreender o meio, a humanidade e a espiritualidade, construindo uma relação espiritual/ética com o solo, as plantas, os animais, e os seres humanos.”

Para Douglas, do ponto de vista produtivo existem algumas diferenças, umas sutis e outras nem tanto: “posso apontar, por exemplo, o uso do calendário biodinâmico que orienta os manejos com base no comportamento dos astros, como a Lua e o Sol, os preparados biodinâmicos que estão baseados na ‘energia’ dos insumos utilizados, entre outros.”

Felipe faz uma comparação simbólica: “Digamos que a agroecologia é um ‘prato de comida’ e a biodinâmica é um ‘shot de probiótico’. Uma é a sua dieta, a outra o complemento. Na minha opinião, o produtor precisa primeiro fazer direito o ‘arroz com feijão’ para só depois complementar.”

Para Paulo de Araujo, co-fundador do Café dos Contos, que fica em Monte Sião (MG), e coordenador de comunicação da Fazenda da Toca: “esses dois termos na verdade são vertentes distintas de um mesmo sistema chamado ‘agricultura regenerativa’.”

Em seu sistema no Café dos Contos, que é agroecológico e utiliza técnicas de agrofloresta, a principal característica é ser uma “área de policultivo que recebe sempre manejo cuidadoso, focado em regeneração e preservação do solo, possibilitando melhoria de todos os indicadores ambientais”.

A agrofloresta é uma técnica utilizada em vários sistemas, sendo um dos pontos centrais da cafeicultura agroecológica. Ela prevê o consórcio de árvores frutíferas ou não com o cafezal, promovendo biodiversidade e fortalecendo o cafezal. “Numa floresta, ninguém aduba ou irriga. Ela tem um mecanismo de sustentação autossuficiente. A ideia de trabalhar com técnica de agrofloresta é trazer isso para a produção do café”, explica Paulo. 

faf água café agroecológico

O papel do carbono na Cafeicultura Agroecológica

Mas o que isso tem a ver com o carbono, esse tema que todos estão falando hoje em dia? No caso do café já se sabe que a liberação de carbono na atmosfera começa no plantio, não apenas do envio/transporte, ou uso de máquinas e combustível. Ao adicionar matéria orgânica ao solo, esses compostos liberam carbono. Dependendo das espécies vegetais e sistemas de cultivo, esse carbono é incorporado ao solo. 

O principal equilíbrio desse processo pode ser o manejo e a associação de cultivos por meio do balanço entre o carbono perdido pela respiração e o carbono acumulado como matéria orgânica, conduzindo o solo à função de dreno e fonte desse elemento.

Paulo comenta que a agroecologia é por natureza um sistema regenerativo, e tem como um dos principais benefícios o sequestro do carbono para o solo.

“Com esse tipo de manejo agroecológico, que é muito menos invasivo, a gente respeita as características físicas do solo sem provocar muito a movimentação de terra com técnicas mais agressivas, como a aragem profunda e uso de química. É possível fazer com que o solo e as plantas, com toda sua diversidade, estoquem no solo um volume alto de carbono.”

“Já se sabe que o excesso de carbono na atmosfera tem efeito danoso (efeito estufa). Já no solo é bastante benéfico: a base da vida. Por isso, quando conseguimos remover esse excesso de carbono da atmosfera e estocá-lo no solo, criamos um sistema mais rico para o próprio solo e para a natureza num contexto geral.”

faf fazenda ambiental fortaleza

Para Felipe, o sistema de cafeicultura agroflorestal brasileiro pode ser o maior aliado da sustentabilidade no mundo hoje. Mas como? “Considera-se hoje a agricultura e a agroindústria (mais precisamente) como um dos maiores causadores de aquecimento global. O café brasileiro está, aos olhos dos estrangeiros, como um desses principais motores.”

“Na FAF estamos estudando um sistema com 150 a 200 árvores por hectare, além de plantas de coberturas, solo orgânico e barreiras de vento. Estamos iniciando um estudo de 5 anos para analisar quanto carbono de fato estamos sequestrando. O que temos até hoje são estimativas.”

“São cerca de dois milhões de hectares de café plantado no Brasil. Imagina se adicionamos 150 árvores para cada um desses hectares? Com um cálculo rápido, 1 hectare de floresta tropical tem cerca de 3.000 árvores. Se plantarmos 150 árvores por hectare nos cafezais brasileiros, seriam 100.000 hectares de floresta para o mundo”, diz Felipe. 

“É possível, e talvez a forma mais prática de fazer um reflorestamento nessa escala. Mas, para isso, precisamos que consumidores no mundo todo nos apoiem, todos podem participar desse movimento que vai ajudar o mundo inteiro.”

café sombreado

Cada sistema à sua maneira

Não existe regra pronta sobre o agroflorestar. Cada propriedade possui características próprias e isso vai conduzir cada processo, de maneira única e específica.

Para o Café Campo Místico, Valmor conta que sua área tem histórico de agricultura convencional, com sistema de monocultura. O primeiro passo, por volta de 2016/2017 após uma visita ao Caparaó (ES), mais especificamente na Fazenda Ninho da Águia. “Fiquei impressionado com a diferença de manejo. Foi um divisor de águas para mim”, conta. 

Depois da visita, começou a mudar o manejo de sua propriedade e zerou o uso do herbicida, buscando uma terra mais rica e deixando crescer mato pelas entrelinhas do cafezal.

“Nessa área também temos muitas árvores de sombreamento, tanto frutíferas quanto nativas, e estamos aumentando o sombreamento plantando palmeiras (palmito), bananeiras, outras frutíferas, e também castanhas.”

“Aumentando a diversidade de uma área que já foi uma monocultura, no mesmo metro quadrado já estamos aumentando a matéria verde e, consequentemente, capturando mais carbono”, explica. 

campo místico

Em sua região a agricultura é essencialmente familiar, aos modos antigos de plantio e manejo. Quando Adriane e Valmor chegaram ali em 1999 e começaram as mudanças, nos contaram que foram até chamados de loucos por tentar algo diferente, mas garantem que já enxergam retorno positivo desse processo que só tende a aumentar em sua área de plantio.

“Na safra passada ficou muito evidente que as melhores colheitas foram as dos talhões das áreas sombreadas e que fugiam da monocultura. Grãos mais graúdos e doces, nitidamente. Agora nesses últimos 3 meses tivemos 3 geadas (2 muito severas), e as áreas sombreadas quase não sentiram”, conta Valmor. 

“Se havia alguma dúvida, já não temos mais. Mudar para o sistema agroecológico para a gente é algo bem definitivo e, sem dúvidas, o nosso futuro. A ideia é expandir e esse processo de transição por aqui será uma constante. Afinal, não existe uma fórmula pronta, demanda testes, que podem dar certo ou não.”

café agroflorestal

No Café dos Contos o sistema agroecológico começou em 2018, quando Paulo teve uma experiência na Fazenda da Toca, grande referência nacional e internacional em agricultura regenerativa.

“Temos feito várias coisas interessantes. Uma delas é que nossa área agora é um campo de pesquisa em cafeicultura agroflorestal, ligada ao IFSULDEMINAS (Instituto Federal do Sul de Minas), no sul de Minas Gerais, uma das principais regiões de produção e exportação de café, e muita expertise nesse assunto.”

Ele conta que inicialmente houve uma conversão para sistemas orgânicos em uma área onde existia um cafezal convencional. Depois, uma área de pasto foi demarcada para fazer um talhão como modelo experimental em sistema de café agroflorestal. A ideia era realizar primeiro a transição para o orgânico.

“Foi muito positivo no ponto de vista de sustentabilidade, mas a produção orgânica é desafiadora na relação de custo (que é muito alto). E a lavoura sentiu, o que resultou em baixa produtividade e alguns desacertos de manejo.”

“Em 2018 resolvemos fazer essa mudança mais drástica para a agrofloresta, e começamos a erradicar aos poucos todos os talhões orgânicos e implantar um novo sistema, com um design produtivo todo agroflorestal.”

café dos contos

Na Fazenda Ambiental Fortaleza, desde 2004 os pais do Felipe, Silvia Barretto e Marcos Croce, cultivam café agroflorestal com um manejo manual. “Os cafezais dessa época possuem muita diversidade de árvores e espaçamentos com menos estudo. A intenção era recriar a ‘casa’ do café, com uma filosofia de proteger o meio ambiente, a mata, as águas e a fauna.”

Felipe só assumiu em 2018, com um manejo agroflorestal com mecanização e mais produtividade. “Hoje tenho 10 árvores selecionadas e espaçamentos estudados para uma sombra igual em toda a lavoura e um manejo altamente produtivo e eficiente.”

“Embora eu concorde com muitos pontos de preservação, meu pensamento é radicalmente diferente. Eu quero mostrar para o mundo que é possível ter alta produtividade mantendo a melhor qualidade e custos competitivos com a cafeicultura convencional.”

café e árvores

Ganho de preço ou ganho de valor?

Se você decidir fazer essa transição, vai ser fácil? Não vai. Vai ser rápido? Também não vai. Todos os processos na agricultura são de longo prazo, pois devemos levar sempre em consideração os ciclos da natureza. 

Quando falamos de produção orgânica e/ou agroecológica, é necessário observar mais de perto a natureza, e que o produtor tenha uma conexão mais íntima com a sua fazenda, entendendo quanto sol bate em cada área, quais são as dificuldades climáticas, quais plantas se desenvolvem melhor.

A melhor parte dessa transição, fora os benefícios ambientais, é a sua colheita e rendimento. Paulo conta que há uma demanda crescente de cafeterias e consumidores, dentro e fora do Brasil, interessados em café especial.

Ele ressalta que esse mercado do café agroflorestal tem ainda maior valor agregado: “Ser regenerativo é um ponto de agregação de valor quando essa prática também é combinada com a qualidade da bebida.”

“Nós já temos uma parceria com uma cafeteria em Londres para comercialização do nosso café. Claro que o valor sempre vai depender da negociação e do relacionamento, mas pode chegar tranquilamente a três vezes mais do que a commodity.”

Mas Felipe traz um ponto importante sobre os valores, além do pensamento financeiro: “Eu não gosto de trabalhar com preço, prefiro trabalhar com valores. Procuro clientes e consumidores que se alinham aos meus valores. Ajudo eles a conseguirem ter um negócio de sucesso e em troca do apoio que me dão.”

café regenerativo

Dicas e leituras para quem quer começar na cafeicultura agroecológica

De maneira objetiva, trouxemos aqui oito pontos fundamentais para entender a cafeicultura agroecológica:

  • Traz impacto ambiental positivo, equilibrando e regenerando a natureza com a diversidade, mas principalmente beneficiando o solo e transformando ele em um sistema vivo
  • Promove a integração entre todos os organismos presentes no sistema, e de todas as pessoas e processos
  • Baseia-se em recursos naturais renováveis e locais
  • Propõe a ciclagem (reaproveitamento de nutrientes e água)
  • Promove a justiça socioambiental e econômica
  • Traz maior conexão entre consumidores e produtores
  • Contribui com mais valor agregado para o produto
  • Relações justas de produção e comercialização

Para entender todos esses aspectos e até como começar sua transição, trouxemos dicas de leitura que poderão facilitar nesta jornada. Se informar neste momento, por todas as vias possíveis, é uma ferramenta bastante importante.

Livros:

  • “Manual do Solo Vivo: Solo Sadio, Planta Sadia, Ser Humano Sadio”, de Ana Maria Primavesi
  • “Agroflorestando o Mundo de Facão a Trator” (PDF gratuito)
  • “Agroecologia: Processos Ecológicos em Agricultura Sustentável”, de Stephen R. Gliessman
  • “Manejo Ecológico do Solo: a Agricultura em Regiões Tropicais, de Ana Maria Primavesi
  • “Fundamentos da Agricultura Biodinâmica”, de Rudolf Steiner
  • “Pomar ou Floresta: Princípios Para Manejo de Agroecossistemas”, de Jorge Luiz Vivan
café agroecológico

Após a conversa com especialistas, percebemos que existe uma diferença entre cafeicultura tradicional, agroecológica e biodinâmica. Conhecemos também uma série de vantagens e desafios de fazer a transição para esse tipo de manejo do cafezal. 

Entre os benefícios, que são inúmeros, estão: o sequestro de carbono mais eficiente, o solo cheio de vida e cafeeiros mais fortes, saudáveis e produtivos. O cuidado com o cafezal agroecológico vai reverberar também pelas próximas gerações tanto produtoras quanto consumidoras, regenerando as florestas e o solo e fortalecendo as famílias, que têm ganhos mais justos.

Créditos: Erico Hiller para FAF Coffees (café das Palmeiras – destaque, café da Sombra, minas de água, lavoura – Fazenda Ambiental Fortaleza, Mococa / SP). Fotos: Carlos Cubi / Produção: Florise Oliveira para Café Campo Místico (talhões de cafezal agroflorestal). Café dos Contos (talhões de cafezal agroflorestal / vista aérea).

*Este artigo faz parte do ESPECIAL CARBONO E REGENERAÇÃO – PDG BRASIL. O especial, que reúne os artigos sobre temas ligados às emissões de carbono e à agricultura regenerativa, faz parte do compromisso do PDG Brasil em fortalecer um conteúdo que contribua com a preservação e a regeneração da natureza na produção de café. Acompanhe outros artigos publicados sobre o tema na editoria Sustentabilidade.

PDG Brasil

Quer ler mais artigos como este?  Assine a nossa newsletter!