3 de agosto de 2021

Qual é a importância do acesso de cafeicultores e cafeicultoras ao crédito?

Os produtores de café em todo o mundo enfrentam uma série de desafios financeiros. Muitos deles podem ser atribuídos a preços baixos ou instáveis do café, mas, infelizmente, nem sempre é tão simples quanto pagar mais aos produtores.

O mundo das finanças é complexo o suficiente antes de considerarmos o fato de que o café é uma safra sazonal que requer investimento em mão de obra e equipamentos para colher e vender. Além disso, os produtores muitas vezes têm de lidar com prazos de pagamento prolongados, falta de garantias disponíveis e altas taxas de juros.

Para saber mais sobre finanças e sua relação à produção de café, conversamos com especialistas do setor de toda a cadeia de suprimentos. Continue lendo para saber por que eles acreditam que o acesso a dinheiro e crédito acessível é crucial para os produtores de café.

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O problema: por que os produtores de café com frequência precisam de financiamento?

Como muitos outros produtos agrícolas, o café é sazonal. É colhido em uma determinada época do ano. Como tal, os produtores geralmente são pagos de uma só vez em um determinado ponto do ano, quando sua colheita é vendida.

Este modelo cria instabilidade. Gerenciar períodos anuais com um único montante fixo é difícil quando os produtores não podem prever o que acontecerá nos próximos 12 meses.

Por exemplo, a fazenda de um produtor pode precisar de melhorias ou reparos importantes e imprevistos. Paralelamente a isso, os custos da colheita podem aumentar ou levar o café até o mercado pode ficar repentinamente mais caro por uma série de razões.

Matti Foncha é o presidente do African Coffee Trading Group e produtor da Camarões Boyo. “O dinheiro que os produtores recebem pela colheita em Camarões muitas vezes nem mesmo paga os custos trabalhistas durante todo o ano”, diz ele.

No entanto, Matti observa que, além dos custos operacionais que uma fazenda acarreta, as pessoas também esquecem o custo de vida. Existem vários custos iniciais significativos de vida que frequentemente requerem financiamento.

“As mensalidades escolares e os presentes de Natal, em particular, são algumas das áreas mais importantes da vida que exigem financiamento após os custos de mão de obra na fazenda”, ele me diz.

Outra questão surge quando os produtores que operam com renda de subsistência buscam investir em suas fazendas e melhorar o rendimento ou a qualidade de suas colheitas. Para alguns cafeicultores, a quantidade de capital necessária para fertilizantes ou novos equipamentos pode simplesmente ser inviável com base no que eles recebem com a receita da colheita.

No geral, isso significa que financiamentos razoáveis e acessíveis não beneficiam os produtores. Para muitos, é algo de que precisam desesperadamente.

O Institute for Agriculture & Trade Policy estima que a demanda por “financiamento comercial sustentável” para os pequenos produtores de café gira em torno de US $3 bilhões. Apenas cerca de 10% disso (US $300 milhões) está disponível em todo o mundo.

Assegurando o financiamento para as fazendas: os obstáculos

Portanto, sabemos que o financiamento é crucial para muitos produtores de café. Mas se for esse o caso, por que é tão difícil para eles terem acesso?

Taxas de juros

Para muitos agricultores, o principal obstáculo são as altas taxas de juros, o que efetivamente impede que eles garantam um empréstimo.

À medida que as taxas de juros aumentam, os lucros agrícolas diminuem para o tomador. Posteriormente, os agricultores gastam menos do seu dinheiro devolvendo o capital que pediram emprestado e mais ao credor.

As taxas de juros podem aumentar por uma série de razões, mas um dos principais fatores é o risco. Quanto mais arriscado um credor considerar um empréstimo, mais eles cobrarão por ele. Como afirma o Guia do Café do International Trade Centre, “o crédito e a mitigação de riscos estão irrevogavelmente ligados”.

“Em Camarões, as taxas costumam ser ridiculamente caras”, diz Matti. “Elas podem chegar a 20% a 24% ao ano, ou 1,5% a 2% ao mês. E às vezes o produtor não consegue obter dinheiro suficiente para fazer o que quer.”

Garantia

Outra questão importante são as garantias. Muitos cafeicultores carecem de formas de garantia convencional (um ativo contra o qual garantir o empréstimo), o que torna os bancos e outros credores menos dispostos a emprestar aos cafeicultores.

No entanto, se os agricultores conseguirem garantir o financiamento, essa falta de garantias significa que o credor provavelmente exigirá uma taxa de juros mais alta.

Em alguns casos, os cafeicultores podem conseguir garantir seu empréstimo com colheitas ou terras futuras. No entanto, qualquer inadimplência significa que o produtor pode perder sua fazenda ou acabar em um ciclo constante de prestações.

Termos de pagamento

Em todo o mundo, os compradores de café normalmente pagam assim que um ‘conhecimento de embarque’ é emitido. Este é um documento que confirma o recebimento da carga, uma vez que ela é liberada para exportação pela alfândega.

O ‘conhecimento de embarque’ serve como confirmação de que o café em questão foi recebido no porto e é usado como um documento de título para o embarque (assim como a escritura de uma casa ou um terreno).

Embora esse modelo funcione a princípio, o tempo que o café leva para ser transportado da fazenda para o porto é significativo. Dado que os produtores já estão trabalhando em um ciclo anual de pagamentos, qualquer atraso adicional pode ser devastador.

“O fluxo de caixa é muito importante”, observa Matti. “Se os produtores venderem na porta de casa, eles podem ser pagos em 12 meses, caso contrário, podem levar mais três a seis meses para receberem.”

Mary Beth Côté-Jenssen é a diretora de parcerias da Root Capital. A Root Capital oferece empréstimos a organizações produtoras de café de pequeno e médio porte, como cooperativas e associações de agricultores.

Mary Beth diz que a esperança é que, operando dessa forma, a Root Capital possa atender mais produtores em escala.

“Os compradores normalmente definem as condições de pagamento”, explica ela. “Em alguns casos, o comprador pode optar por estender os termos de pagamento de 30 dias líquidos para 90 dias líquidos.”

“No entanto, isso pode causar uma pressão significativa na cooperativa ou associação em questão e, por consequência, em todas as famílias de produtores envolvidas. Portanto, o acesso ao crédito permite essencialmente um pagamento em dinheiro ao agricultor.

Ao mitigar quaisquer atrasos de pagamento adicionais, ela explica que os produtores podem evitar dores de cabeça operacionais e cobrir seus custos de maneira oportuna e eficiente.

Alfabetização financeira

Matti também acrescenta que a educação financeira é uma barreira. A experiência dos pequenos agricultores geralmente está na agricultura e no cultivo de café, não em finanças.

Em primeiro lugar, isso torna difícil para os produtores conseguirem empréstimos, mas ele diz que a educação continuará a ser um problema no futuro se o financiamento for garantido.

“Se os agricultores não estão recebendo bons conselhos financeiros, há o risco de que peçam emprestado e gastem mais do que sua capacidade de produção”, diz ele.

Análise de risco: a perspectiva do credor

É fácil dizer que os credores devem simplesmente ser mais “justos” e equitativos no que diz respeito à produção de café. Mas, como aponta o Guia do Café da ITC, o risco e o financiamento estão intrinsecamente ligados.

Alessandro Chavez é Gerente de Desenvolvimento Econômico do SEBRAE Minas Gerais no Brasil. “Cada instituição financeira usa uma série de mecanismos para reduzir o risco das operações”, ele me conta. “Isso inclui taxas de juros.”

Os “mecanismos” descritos por Alessandro são usados como uma forma de segurança contra esse risco aumentado. A produção de café pode ser vista como um investimento arriscado por uma série de razões. Juntamente com a falta de garantias (significando menos segurança do credor), as questões climáticas são uma preocupação.

Matti diz: “Ao lado do clima e da natureza, existem doenças que afetam a produção [como a ferrugem do café e assim por diante]. Isso significa que o financiamento ou crédito muito cedo na estação de cultivo pode ser uma decisão extremamente arriscada.”

No Brasil, Alessandro explica que o “Plano de Safra” apoiado pelo governo (às vezes também conhecido como “Plano Safra”) mitiga o risco e apoia o empréstimo de baixo custo aos agricultores.

Por meio desse plano, o governo brasileiro ofereceu cerca de R$ 236,3 bilhões (aproximadamente US$ 41 bilhões) em empréstimos de baixo custo ao longo da safra 2020/21. As taxas de juros para esses produtores variam de 3% a 10,5% (comparado a uma média de 19,9% no setor privado).

“As questões climáticas e meteorológicas são frequentemente consideradas nos empréstimos do Plano de Colheita”, diz Alessandro. “Os credores então renegociam dívidas e estendem os termos de pagamento. Isso permite que as instituições financeiras financiem com um pouco menos de riscos.”

“Por sua vez, o produtor precisa ter acesso a esse financiamento para produzir e comercializar seus cafés.”

Quanto ao Root Capital, Mary Beth diz: “Com os riscos de mercado em mente, emprestamos contra contratos futuros; essa é uma das maneiras de mitigar o risco. Uma vez que uma cooperativa tenha um contrato com um comprador, nós emprestamos baseados nesse contrato.”

Isso mitiga o risco por meio de um acordo estabelecido de que o café será comprado e que os empréstimos serão pagos sumariamente. Isso efetivamente remove a necessidade de garantias físicas (terrenos ou outros ativos) e protege o processo de empréstimo.

No entanto, Mary Beth acrescenta que existem outras maneiras de os credores apoiarem os produtores. “O crédito por si só nem sempre é suficiente”, diz ela. “Em resposta à Covid-19, implementamos ‘Subsídios de Resiliência’ que aliviam as dores de cabeça operacionais [para as cooperativas] que precisam adaptar suas operações, fornecer EPI aos produtores e assim por diante.

“Além de adaptar os termos dos empréstimos, essas doações em dinheiro ajudam as cooperativas (e, por extensão, os produtores) a se manterem à tona durante interrupções do mercado como a pandemia.”

A produção de café está repleta de desafios, e as dificuldades de acesso ao crédito acessível apenas aumentam isso. Dinheiro acessível é necessário para muitos produtores se eles quiserem investir em suas propriedades e se tornarem financeiramente mais sustentáveis no longo prazo.

Como acontece com muitas coisas no setor cafeeiro, esse não é um problema que possa ser resolvido de maneira simples. No entanto, iniciativas de empréstimos apoiados pelo governo, como o Plano de Safra no Brasil, são um passo na direção certa.

Agora, com o cenário das geadas que acometeram milhares de cafezais no país, os cafeicultores aguardam novas políticas que facilitem o acesso ao crédito. 

Para as centenas de milhares de pequenos cafeicultores que buscam ir além da vida de subsistência, as opções de financiamento sustentáveis e viáveis não são apenas úteis; elas são necessárias.

Créditos das fotos: Root Capital

Tradução: Daniela Andrade. 

PDG Brasil

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