7 de junho de 2021

Abelhas no cafezal: Como a integração entre café e polinizadores contribui para a produtividade da fazenda

As abelhas são polinizadores, ou seja, transferem os grãos de pólen entre diferentes estruturas das flores, gerando frutos e sementes. Mas será que isso também acontece quando unimos abelhas e café?

O café arábica é uma planta autógama, consegue produzir frutos e sementes sem a presença de abelhas e outros polinizadores. Estudos comprovam, porém, que a criação de polinizadores no entorno dos cultivos contribui com uma maior produtividade. Além disso, a integração café-abelhas faz parte de um conjunto de ações para tornar a produção sustentável, preserva a biodiversidade e é uma fonte de renda extra para os cafeicultores.

Essa técnica, de instalar caixas de abelhas ao lado dos cultivos para potencializar a produção, é conhecida como polinização assistida e já é difundida e bastante utilizada em dezenas de países, não apenas para o café.

Para conhecer mais a fundo este tema, o PDG Brasil conversou com especialistas e com cafeicultores e cafeicultoras com experiência nesse consórcio. Leia abaixo para ver o que eles nos contaram.

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abelhas nativas no cafezal

Caixas de abelhas nativas mandaçaia em mata nativa ao lado de cafezal na Fazenda Grama,
em Arceburgo, Sul de Minas (MG). Crédito: Thiago Fontoura.

PARCERIA DE CAFÉ COM ABELHAS AUMENTA A PRODUTIVIDADE

O biólogo Cristiano Menezes é pesquisador na área de Abelhas e Polinização da Embrapa Meio Ambiente. Há 17 anos, trabalha com abelhas e, há cinco, especificamente com a associação desses polinizadores com a cafeicultura.

Cristiano conta que, já há alguns anos, pesquisas indicaram que os polinizadores são responsáveis por cerca de 30% da produção de café arábica. Como foi realizada a experiência? Em nove propriedades, ramos de flores foram protegidos por tule, impedindo a ação das abelhas. Posteriormente, foi comparada a produção desses ramos “ensacados” com os ramos livres, ou seja, sem polinização versus com polinização. Foi verificado que, quando as abelhas visitam o cafezal, a produtividade é 28% maior em média. “Isso não significa que o produtor não consiga produzir quando não tem abelha. Ele consegue. Mas vai produzir bem menos”, explica.

Como cientista, ele pessoalmente acompanhou uma pesquisa recente com a Agrobee (startup especializada em manejo de abelhas para polinização) em 21 propriedades que produzem café. O objetivo dessa pesquisa foi verificar se há ou não acréscimo de produtividade caso haja mais abelhas do que as naturalmente distribuídas no ambiente, isso quer dizer: com polinização assistida versus abelhas do ambiente.

“Na produção de canéforas já são bem conhecidos os benefícios da polinização assistida, mas muitos cafeicultores de arábica acreditam que as abelhas não são importantes para o café”, explica Cristiano. “Então a Agrobee realizou com a minha orientação a pesquisa para sabermos. Foram colocadas caixas de abelhas em um pedacinho da plantação e então foi comparada a produtividade daquele pedacinho com o restante da fazenda.”

O resultado foi surpreendente. Nos primeiros 21 clientes acompanhados de perto, houve um aumento médio de 17% de produtividade nas áreas próximas das abelhas extras em relação às áreas apenas com abelhas da natureza. Ou seja, quando se coloca mais abelhas na propriedade (polinização assistida), há um aumento de produtividade considerável. Cristiano destaca que houve variação. Em algumas fazendas não houve aumento, em outras foi menor que a média, em outras foi maior até que 25%. “Há diferenças de acordo com o sistema de produção (orgânico, convencional, com irrigação ou não), com as características de cada região, especialmente latitude e altitude, qual variedade é utilizada. Existem muitas variáveis, por isso, é importante testar.”

Cristiano sugere que os próprios cafeicultores façam a experiência em suas propriedades. “Coloque abelhas em uma parte e compare com o restante da plantação. Assim, poderão ‘ver com os próprios olhos’ quais resultados conseguem obter”, sugere. “Isso é fácil de observar, não tem mistério. Qualquer cafeicultor consegue fazer esse teste.”

Grãos de café - bem polinizado à esquerda e mal polinizado à direita 2

Presença de açúcares e tamanho dos grãos são influenciados pela polinização. Café verde bem polinizado à esquerda e mal polinizado à direita. Crédito: Cristiano Menezes, da Embrapa Meio Ambiente.

QUALIDADE DA BEBIDA

Muitos cafeicultores relatam uma melhora na qualidade da bebida quando há um trabalho de associação das abelhas com a produção de café.  

Gleycon Velozo da Silva é mestre em Ciências Ambientais, consultor em Meliponicultura, pesquisador no Grupo de Estudos em Planejamento Territorial e Ambiental do Instituto Federal do Sul de Minas e atualmente atende 15 famílias em um projeto de preservação das abelhas nativas da Cooperativa dos Agricultores Familiares de Poço Fundo e Região (Coopfam) em Poço Fundo – MG. Uma de suas pesquisas foi exatamente analisar a influência da polinização assistida com abelhas nativas na qualidade do café. “Além do aumento na produção, percebemos, sim, que há uma melhora na qualidade da bebida. Registramos frutos mais pesados, com sementes maiores, e uma maior presença de açúcares.”

Paula Carolina Carrijo Vilhena é cafeicultora na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, em Ibiraci, Minas Gerais. Iniciante no manejo de abelhas com café, Paula conta com a ajuda de vários amigos que têm experiência e tem estudado bastante o tema. “Comecei por curiosidade, mas peguei amor no trabalho com as abelhas. Hoje me dedico a estudar sobre apicultura e meliponicultura, manejo integrado de pragas, entomologia”, conta. 

“As abelhas sem ferrão, como a jataí e a mandaçaia, são nossas parceiras, pois ajudam a melhorar a qualidade da bebida do café. Há um benefício para os açúcares do café, para o tamanho do grão, o que melhora o valor do café”, diz.

Abelha africanizada - Apis mellifera

A abelha europeia africanizada ou exótica (Apis mellifera) produz o mel mais comercializado no Brasil e tem ferrão.
Pode ser utilizada para a polinização em cafezais
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Jataí - Tetragonisca angustula

A abelha nativa, da tribo Meliponini, também é indicada para polinização na cafeicultura,
mas não oferece risco para os cafeicultores por não apresentar ferrão
.

QUAL É A ESPÉCIE DE ABELHA IDEAL PARA POLINIZAR O CAFEZAL?

Antes de investir em abelhas, é importante saber se há uma diversidade de abelhas muito grande no mundo todo. São mais de 20 mil espécies de abelhas no mundo. Só no Brasil, há mais de 2.000, uma diversidade enorme. A mais usada (e conhecida) é a Apis mellifera, a abelha comercial, também conhecida como exótica, de listras amarelas e ferrão, usada comumente para a produção de mel. Ela não é nativa, foi importada de outros países, da África e da Europa. Então o que a gente tem hoje no Brasil é uma mistura de raças, de subespécies da A. mellifera, chamada de abelha africanizada.

Temos também as abelhas da tribo Meliponini, que são as abelhas sem ferrão, também conhecidas como nativas ou brasileiras, por exemplo, a mandaçaia, a jataí, a uruçu, a jandaíra, a tiúba.  

Gleycon é especialista em abelhas nativas sem ferrão. Ele conta que ainda é preciso pesquisar mais para ter uma resposta mais certa sobre as principais abelhas que podemos usar e são indicadas para a cafeicultura. “Devemos tomar muito cuidado ao introduzir abelhas que são de outras regiões. Temos que dar preferência às abelhas que são nativas da localidade onde se encontram as lavouras.”

Segundo o especialista, durante suas pesquisas ficou evidente que as abelhas do gênero Trigona, Plebeia e Frieseomelitta foram as mais abundantes, e, nas áreas em que elas mais ocorreram, os frutos tiveram uma tendência de ser mais pesados e com as maiores sementes.

Juliana Paulino da Costa Mello é cafeicultora há quase 30 anos, quinta geração de produtores e sócia proprietária das fazendas Nova Aliança, Capelinha e Roccaporena, no Sul de Minas. Ela conta que começou a criar abelhas sem querer. “Apareceram alguns enxames em uma área de preservação permanente perto da lavoura de café. Aí colocamos as caixas. Nunca comparamos com atenção os cafeeiros mais perto das abelhas e os outros, mas notamos uma maior constância na produção do talhão das abelhas”, conta.

Faz cerca de oito anos que Juliana começou o consórcio com abelhas do tipo europeias africanizadas (Apis mellifera). “Acreditamos numa agricultura sustentável. Já não utilizamos inseticidas e herbicidas, e as abelhas são de suma importância no aumento da polinização.”

Para Cristiano, da Embrapa, as exóticas (europeias) são mais indicadas e mais fáceis para a associação com o café. “Já existe um sistema de produção e criação dessas abelhas estruturado que permite que você imediatamente já tenha abelha na sua plantação.”

Ele considera que as abelhas nativas também são interessantes e também podem ser usadas, além de terem o grande benefício de não ferroar. “Muitas propriedades não querem as abelhas africanizadas por causa das ferroadas e preferem as abelhas sem ferrão”, conta.

“Diversas espécies visitam o café e isso é muito importante para a produção. Ter um grande volume de uma abelha só não é muito eficiente. Melhor ter menos abelhas com uma diversidade maior”, explica.

polinização no café

Cafeicultor monta caixas de abelhas ao lado de cafezais em Jacuí, Minas Gerais. Crédito: Marcelo Batata.

LUCRANDO COM OUTROS PRODUTOS DAS ABELHAS

As abelhas oferecem uma variedade de produtos que podem ser comercializados. Além do mel silvestre ou não, de abelhas nativas ou abelhas com ferrão, a colmeia oferece pólen, própolis, o favo, hidromel e até cachaça, itens que podem ser comercializados paralelamente ao café, no caso de o cafeicultor ou a cafeicultora estabelecerem a criação na própria fazenda.

Thiago Fontoura, da Fazenda Grama, em Arceburgo, Sul de Minas (MG), é cafeicultor com experiência em sustentabilidade e há cerca de 20 anos eles trabalham com abelhas na fazenda. “Tanto no café como nas demais culturas, a presença delas é constante. Cresci vendo a atividade com as abelhas aqui na fazenda. Estranho, pra mim, seria a ausência delas. Como na fazenda temos uma boa área de mata preservada, é lá que as abelhas mais se alimentam, paralelamente ao café. Por isso, o mel feito aqui seria caracterizado como silvestre, e temos uma boa extração de mel.”

Thiago menciona que conta com um “grande parceiro” na atividade com as abelhas na fazenda. “O José Constâncio Neto é nosso apicultor há anos. Ele nos ajuda a cuidar das abelhas para produzirem, além do mel, própolis, hidromel e uma ótima cachaça”, conta.

Paula, da Fazenda Nossa Senhora Aparecida, também lucra com outros produtos das abelhas. “Ah, são muitos, como própolis, pólen, mel, venda de enxames, atrativos, caixas, colmeias. Há uma infinidade de maneiras de aumentar o faturamento com criação das abelhas”, conta. “E ainda podemos pulverizar as lavouras com própolis, bom para o controle de fungos e pragas.”

caixas de abelhas nativas no cafezal

Caixas de abelhas nativas colocadas ao lado de talhão de cafezal em fazenda de Jacuí, Sul de Minas (MG). Crédito: Marcelo Batata.

DICAS DE COMO CRIAR ABELHAS NO SEU CAFEZAL

Pensando em facilitar a vida do cafeicultor que quer trabalhar com abelhas no cafezal, o PDG Brasil reuniu algumas dicas sugeridas pelos especialistas.

LEIA, ESTUDE E CONVERSE

É muito importante se capacitar, ler e aprender sobre as abelhas, as diferenças entre as espécies, compreender como elas vivem, como se alimentam, como se organizam em suas colônias e como se reproduzem. Conversar com amigos e amigas cafeicultores que já trabalham com abelhas, buscar exemplos e soluções que eles encontraram.

DEFINA UM FORMATO

1 – Favorecer as abelhas disponíveis naturalmente no ambiente

Manter as áreas de reserva legal e preservação permanente bem conservadas contribui com a polinização, pois ali é que as abelhas do ambiente vão se concentrar e se alimentar. Isso vai ajudar a aumentar a população de abelhas do entorno, diminuir os custos com compras de colmeias e aumentar a polinização. Se precisar recuperar essas áreas, uma dica é preferir plantas que atraem mais as abelhas, como jaboticaba, pitanga, goiaba, eucalipto, capixingui, que oferecerão alimento para elas o ano todo, diferentemente do café que as alimenta num período restrito (florada).  

2 – Alugar colmeias (polinização assistida)

Alugar colmeias de abelhas para colocar no cafezal é a opção mais rápida, prática e talvez a mais barata, pois o criador de abelhas traz as colmeias prontas, as abelhas fazem a polinização e depois o criador leva as caixas embora.

3 – Criar abelhas como atividade comercial

Ter a criação de abelhas como uma parceira da propriedade também é interessante. Pode-se produzir e comercializar mel, além de outros produtos, paralelamente à cafeicultura.

DEFINA O TIPO DE ABELHAS

É preciso saber se as abelhas que pretende colocar em sua propriedade são com ferrão ou sem ferrão, se são naturais da região e se na sua propriedade há disponibilidade de recursos para essas abelhas ao longo do ano (áreas com mata).

DEFINA O INVESTIMENTO POSSÍVEL

O investimento na criação de abelhas é bastante variável. Pode ir de R$ 200 (valor de uma caixa de abelhas exóticas) a R$ 5.000 (investimento para estruturas mais elaboradas). Cristiano, da Embrapa, estima que o investimento fique entre R$ 500 e R$ 1.000/hectare, dependendo da forma como o produtor ou a produtora optarem, ou seja, diretamente com criadores de abelhas ou por meio de serviços de empresas especializadas.

PARE DE (OU EVITE) USAR DEFENSIVOS AGRÍCOLAS

Defensivos agrícolas em alguns casos podem matar populações inteiras de abelhas. Por isso, o cafeicultor que iniciar a parceria com as abelhas deve buscar métodos mais sustentáveis de produção, não utilizando defensivos durante as florações, ou limitar ao máximo o uso desses químicos. Vale consultar os especialistas sobre os defensivos que trazem risco para as abelhas.   

COMEÇAR PEQUENO

A principal dica, segundo Thiago Fontoura, é fazer investimento pequeno no início, com cerca de 10 caixas, para sentir se a atividade combina com a rotina da fazenda. “A pouca quantidade permite um aprendizado melhor. Se a coisa funcionar, pode-se ampliar.”

abelha Mandaguari em flor de café 1

Abelha mandaguari fazendo polinização em flor de café em fazenda na região da Mogiana (SP). Crédito: Cristiano Menezes.

As abelhas são muito importantes para diversos cultivos agrícolas, podendo trazer um aumento significativo de produtividade. Ter abelhas no cafezal contribui também com a qualidade da bebida, pois impacta no tamanho dos frutos e sementes e pode incrementar a presença de açúcares.

Outra vantagem de fazer o consórcio das abelhas com o café é aumentar o faturamento da fazenda ou sítio, com a venda de mel e outros subprodutos.

Mas a razão que tem encantado produtores e compradores de café no Brasil e em todo o mundo é o fator sustentabilidade. Fortalecer a preservação da flora local e da biodiversidade cuidando das abelhas faz o café se tornar ainda mais atrativo e saboroso. “O resultado do trabalho com as abelhas mostra que a gente pode produzir mais, sem aumentar os impactos ambientais que a gente já causa. É um benefício incrível para o meio ambiente, para a sociedade, para o próprio agricultor”, resume Cristiano.

PDG Brasil

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