5 de fevereiro de 2021

Explorando produtividade e rentabilidade para cafeicultores

A produtividade na fazenda é bastante discutida no setor cafeeiro. Flutuações de preço e dificuldades com pragas e doenças fazem com que os níveis de produtividade sejam um problema sério para cafeicultores ao redor do mundo.

No entanto, ao investir em algumas áreas específicas na fazenda, produtores podem avançar na melhoria da produtividade.

Para saber mais sobre produtividade na lavoura e como ela afeta a rentabilidade, conversei com João Moraes da Yara e Sebastião Brinate da LSW Consultoria. Leia para descobrir o que eles me disseram.

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produtor de café

Produtividade e rentabilidade

Antes de começarmos a falar sobre como aumentar a produtividade, vamos entender como ela está ligada à rentabilidade na cafeicultura.

João Moraes é diretor de contas globais da Yara, empresa líder mundial em nutrição de plantas, com escritórios em mais de 60 países ao redor do mundo. Ele conta que, como o café é uma lavoura perene, ele leva tempo para produzir após ser plantado.

Na maior parte dos casos, isso significa que os investimentos dos produtores começa a ser compensado a partir de três anos. Fundamentalmente, isso significa que a cafeicultura leva anos para se tornar rentável.

Sebastião Brinate é engenheiro agrônomo atuante na LSW Consultoria, uma empresa brasileira de consultoria agronômica. Ele diz que a relação entre a produtividade e a rentabilidade é “uma das principais relações que devemos analisar [no tocante à viabilidade econômica da cafeicultura]”.

De acordo com ele: “A rentabilidade está diretamente ligada à produtividade; se eu tenho alta produtividade [como cafeicultor], eu terei um menor custo [por saca].!

Segundo João: “O mundo produz por volta de 170 milhões de sacas [de café por ano]. Essa produção ocorre em aproximadamente 10.5 milhões de hectares, de acordo com os últimos dados da FAO. Isso quer dizer uma produtividade média global de 16 sacas/ha.

No entanto, de acordo com ele, isso é um problema. “Na maior parte do mundo, esse nível de produtividade para pequenos cafeicultores não é economicamente sustentável. Mesmo com os prêmios que alguns mercados pagam por cafés únicos de origens conhecidas, a gente sabe que esse é um valor muito desafiador para o produtor [para viver].

Por conta dos níveis de produtividade muito baixos, muitos cafeicultores não conseguem ter renda necessária para alimentar suas famílias e investir em suas fazendas. Isso faz com que a situação se torne ainda mais difícil conforme os cafeeiros vão envelhecendo e ficando menos produtivos.

frutos de café

O que influencia a produtividade?

A produtividade de um pé de café varia em função de uma série de fatores. Estes variam desde o microclima (solo, precipitação, altitude, latitude, sombra e assim por diante), bem como a genética, os efeitos cada vez maiores das mudanças climáticas, práticas agrícolas e manejo do solo.

Genética

Talvez o ponto mais simples seja a espécie da planta que está sendo cultivada. Das mais de 140 espécies diferentes do gênero Coffea, o arábica e o robusta representam mais de 99% da produção global.

Em comparação ao arábica, o café robusta apresenta maior produtividade, maior resistência a pragas e doenças e se desenvolve bem em uma faixa maior de altitudes, com um intervalo ótimo de temperatura média anual entre 24 a 30ºC. Por outro lado, o café arábica geralmente tem menor produtividade, é mais sensível a pragas e doenças e cresce melhor em altitudes mais elevadas (mais de 800m acima do nível do mar). O arábica se adapta melhor a temperaturas mais baixas (geralmente entre 18 e 21ºC).

No entanto, apesar de serem mais difíceis de se cultivar, as plantas de arábica produzem sabores mais desejados ​​e procurados. Como resultado, elas têm um maior valor de mercado.

Dentro de cada espécie, também existem centenas de variedades (ou cultivares), cada uma com características únicas ligadas à produtividade e adaptabilidade. Isso inclui o tamanho do fruto e a densidade do grão, a altura e largura da planta, velocidade de crescimento e necessidades nutricionais, todos os quais podem afetar a produtividade.

Fertilidade do solo

A fertilidade está diretamente ligada à saúde do solo. Assim como outras plantas, os cafeeiros absorvem nutrientes do solo para realizar processos metabólicos ao longo de seu ciclo de crescimento. Diferentes nutrientes são responsáveis por diferentes processos, como desenvolvimento da raiz, crescimento da folha, floração, desenvolvimento do grão e amadurecimento.

No entanto, ao contrário das culturas de cereais que têm uma vida útil mais curta (como soja ou milho), as plantas de café permanecem no solo após a colheita. Com o passar do tempo, sem a intervenção adequada, os nutrientes do solo ficarão desequilibrados, afetando negativamente a produtividade.

Segundo João: “A fertilidade do solo é uma parte importante do desenvolvimento da planta (especialmente nos estágios iniciais) e consistência na produtividade.” Ele acrescenta que a análise do solo é uma ferramenta poderosa que ajuda a quantificar os atributos químicos e físicos do solo. Isso inclui seu pH, capacidade de troca catiônica (CTC) e níveis de nutrientes, que são todos críticos para o desempenho da planta.

João acrescenta que a Yara examina as análises de solo de parceiros nas regiões produtoras de café para permitir que eles desenvolvam um programa de nutrição balanceada para otimizar a produtividade.

Práticas agrícolas

As práticas agrícolas são as decisões que os produtores de café tomam para administrar suas lavouras. João diz que existem várias práticas agrícolas que podem influenciar a produtividade.

Essas incluem:

  • Escolha de espécies e variedades. Para os produtores, é importante observar variedades diferentes para aprender sobre suas características (especialmente produtividade) e escolher entre elas.
  • Densidade da cultura. Existe um número ideal de cafeeiros por hectare, que varia de acordo com a variedade, as condições locais (clima e retenção de água no solo, por exemplo) e o sistema de produção. Encontrar o nível correto de densidade da cultura é fundamental para melhorar o rendimento.
  • Método de colheita. O gerenciamento da planta muda de acordo com como a colheita é feita. As colheitadeiras mecânicas não conseguem colher as cerejas dos pés de café mais altos, por exemplo. Logo, produtores que colhem manualmente podem permitir que seus pés de café cresçam mais e, consequentemente, melhorar o rendimento.
  • Distribuição das plantas. Isso vai determinar a quantidade de luz solar que o cafeeiro recebe, o que afeta diretamente a fotossíntese (e consequentemente o crescimento e a produção).
  • Preparação de solo e irrigação. Essas são práticas que podem tornar as áreas mais resistentes durante os períodos de seca ou altas temperaturas. Os produtores podem até fazer a “fertirrigação”, onde fertilizantes solúveis são adicionados à água usada para irrigar as plantas.
  • Poda e recepa. A poda regular permite que as plantas se recuperem após a colheita, produzindo novos ramos.
  • Idade da lavoura. Os níveis de produtividade diminuem com o tempo, e os campos devem ser renovados quando a produtividade fica particularmente baixa.

No entanto, é importante observar que o que funciona em uma fazenda pode não ser adequado para outra.

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Condições climáticas

Cafeeiros precisam de luz solar e chuva suficientes, bem como estarem inseridos numa certa faixa de temperatura ideal para maximizar a produtividade.

Temperaturas extremas comprometerão o rendimento, o que torna ainda mais importante o cultivo do café (especialmente o arábica) em altitudes com temperaturas adequadas.

No entanto, com o impacto das mudanças climáticas, a quantidade de terra adequada para a produção de arábica está diminuindo. Como resultado, os produtores estão sendo forçados a subir mais alto ou olhar mais longe do Equador para “perseguir” as melhores temperaturas para seus cultivos.

Pragas e doenças

Pragas e doenças são um problema persistente para os produtores de café e, se não administradas de forma adequada, podem ser devastadoras. Uma infestação de pragas ou surto de fungos pode fazer com que os produtores sacrifiquem uma proporção significativa de sua colheita, sofrendo perdas financeiras..

Apesar de existirem centenas de pragas e doenças que podem afetar o cafeeiro, algumas são mais prevalentes do que outras.

A broca do café, o bicho-mineiro e as cochonilhas são três dos insetos mais comuns que danificam as plantas. Em termos de doenças, a ferrugem do café, a murcha do café e o mal rosado são algumas das mais prevalentes.

João observa que a boa saúde das plantas começa com uma boa nutrição. Embora isso não signifique que cafeeiros bem nutridos serão imunes a pragas e doenças, ele diz que certamente estarão em melhor posição para tolerá-las e se recuperar, em comparação a lavouras mal nutridas.

Ele acrescenta que suplementar a nutrição com a aplicação foliar de nutrientes (ou seja, diretamente nas folhas) pode ajustar a nutrição da planta para um melhor desempenho e até mesmo aumentar a resiliência da planta.

Nutrição de Plantas e Rentabilidade

Para produtores de café, o lucro é influenciado por quatro fatores principais: o preço do café, o custo de produção, o rendimento e a qualidade do café. Como minimizar custos é difícil e o preço é determinado por fatores externos, os únicos dois fatores internos que os produtores podem influenciar são o rendimento e a qualidade de suas plantas.

O aumento do rendimento da lavoura melhora diretamente a receita total por hectare e, como resultado, aumenta a rentabilidade.

Em muitos casos, esse aumento na produção (e, portanto, na rentabilidade) não é impulsionado pelo simples aumento do uso de fertilizantes, mas sim por um programa de nutrição de culturas balanceado, de acordo com o potencial da área cultivada.

Isso significa reabastecer os nutrientes que faltam no solo por meio das fontes certas de fertilizantes e do equilíbrio certo de nutrientes, aplicados na hora certa, na dose certa.

Sebastião conta: “Fizemos um experimento em parceria com a Yara, no Sítio Recanto da Pedra, no Caparaó, Minas Gerais. Neste estudo, analisamos fertilizantes à base de nitrato da Yara (como fonte de nitrogênio) em comparação com outros dois fertilizantes comerciais disponíveis na região ”.

Ele conta que para medir o desempenho de cada fertilizante, eles calcularam o rendimento a partir dos talhões em que usaram cada tipo. Em seguida, eles compararam o valor líquido das vendas do produto em reais (R$) de cada lote.

O lote da Yara, diz Sebastião, resultou em uma média de 47,87 sacas/ha, o que foi um aumento de 25,5% e 38,1% em relação aos outros dois lotes (respectivamente). Como resultado, o lucro aumentou, com o lote da Yara rendendo ao produtor R$7.163,53 a mais do que o segundo lote (aumento de 23,5%) e R$10.237,55 a mais do que o terceiro (aumento de 37,4%).

Vietnã e Brasil: o que podemos aprender?

João diz: “Hoje, o Vietnã tem a maior produtividade média de café robusta do mundo, produzindo cerca de 40 sacas de café por hectare.” Para o arábica, porém, ele diz que o Brasil lidera. “[O Brasil tem produtividade muito boa] em anos de alta produção … acima de 30 sacas/ha em média.”

Como resultado, podemos concluir que a produção média entre esses dois países está entre 30 e 40 sacas/ha. Isso é mais do que o dobro da média global de aproximadamente 16 sacas/ha.

Então, o que o Vietnã e o Brasil estão fazendo que outros países não estão?

Pesquisa & Desenvolvimento

Isso é algo em que o Brasil e o Vietnã investiram nas últimas décadas. Sebastião afirma: “Pesquisa e desenvolvimento no Brasil é um dos principais diferenciais. Já temos variedades mais resistentes a pragas e doenças, o que ajuda a produtividade”.

Densidade de plantas e poda

João me disse que a densidade da cultura é um fator chave que afeta a produtividade, no entanto, segundo ele: “Ainda é comum ver fazendas com densidade de plantio muito baixa… talvez 1.000 ou 2.000 plantas por hectare, quando, por exemplo, as fazendas modernas têm mais de 5.000 plantas por hectare”.

Isso não significa necessariamente que plantar mais café seja sempre a melhor opção. O espaçamento é importante, pois as plantas competem por luz, água e nutrientes; produtores devem buscar referências locais para tentar atender às necessidades de suas práticas de cultivo e aos recursos de que dispõem.

Segundo João: “[Para a colheita mecanizada de arábica] eu [espaçaria os cafeeiros] a cada 320-400 cm por 50-70 cm, permitindo pelo menos 4.464 plantas por hectare. E eu poderia colocar esse mesmo número em uma fazenda que usa a colheita manual se eu [espaçar os cafeeiros] 280 cm por 80 cm, sempre observando as características de variedade e as condições ambientais. ”

Sebastião lembra ainda que a poda é importante. “Quando uma planta de café tem cerca de oito anos, você pode podá-la.” Isso, como mencionado anteriormente, estimulará a regeneração e ajudará a renovar a produtividade para os próximos anos. A idade para a primeira poda pode variar, já que diferentes padrões de espaçamento e condições ambientais podem promover um desenvolvimento mais rápido ou mais lento.

Fertilização e Nutrição de Plantas

Sabemos que as lavouras de café têm seu melhor desempenho quando são adequadamente nutridas com a aplicação de fertilizantes. No entanto, produtores de café às vezes não aplicam, aplicam excessivamente ou fazem uma aplicação de maneira incorreta. Tanto no Vietnã quanto no Brasil, os produtores incorporaram efetivamente o uso de novas tecnologias e programas de nutrição de culturas para aumentar a produtividade.

Para explicar a diferença entre a simples aplicação de fertilizantes um programa de nutrição de culturas, João fala sobre o que chama de “fome oculta” no cafeeiro.

” ‘Fome oculta’ é a situação em que uma lavoura de café não [atinge a produtividade ideal], apesar de receber boas doses de fertilizantes NPK (uma combinação de nitrogênio, fósforo e potássio). [Isso porque a falta de] micronutrientes e/ou macronutrientes balanceados a impede de atingir seu potencial produtivo, mesmo sem apresentar sinais de deficiência de nutrientes nas folhas. 

“Nutrição não é apenas adicionar mais fertilizante. É criar um plano de nutrição equilibrado, consultando um relatório de análise do solo, a história da área e seu potencial produtivo”, diz João. “Posso fertilizar minha planta seis vezes por ano. Mas se eu não estiver adicionando o fertilizante correto, se eu não estiver olhando para o equilíbrio dos nutrientes [no solo e na planta], eu poderia estar apenas desperdiçando dinheiro.”

Ele conta que a Yara oferece ferramentas e assistência aos produtores de café para ajudá-los a entender as necessidades de suas lavouras. Ele explica que, por meio de vários agrônomos que trabalham com a Yara e seus distribuidores, a empresa pode criar programas e soluções de nutrição de culturas sob medida para atender às necessidades individuais específicas dos produtores e melhorar a produtividade e a rentabilidade.

Para começar, João recomenda fortemente a realização de análises de solo e folha para determinar de quais insumos uma cultura se beneficiará. No entanto, ele acrescenta que os produtores podem não ter acesso a esse tipo de tecnologia. É aqui que a Yara pode ajudar, diz ele, pois eles têm agentes ou escritórios em mais de 160 países ao redor do mundo.

Em suma, ele conta que as soluções da Yara podem melhorar os rendimentos e a rentabilidade para os cafeicultores. Isso, segundo ele, ajuda a resolver muitos fatores limitantes em regiões produtoras. Isso também continua a ser o foco principal da análise de longo prazo da Yara em colaboração com os principais laboratórios e centros de pesquisa de café em todo o mundo.

Melhorar os níveis de produtividade em uma fazenda de café não é fácil. No entanto, seguindo as melhores práticas em nível de fazenda, os produtores podem aumentar os níveis de produtividade de suas plantas.

Isso inclui boa pesquisa, genética apropriada, densidade adequada de cultura,  poda no tempo certo e da maneira certa e, acima de tudo, um programa de nutrição balanceada. Seguindo essas práticas, produtores serão capazes de aumentar a produtividade, levando a um custo por saca mais baixo e, como resultado, maior lucratividade.

Traduzido pelo próprio autor.

Crédito das imagens: Yara, Wikimedia Commons

PDG Brasil

Nota: Este artigo foi originalmente patrocinado pela Yara

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