28 de setembro de 2020

Como o Café Verde é Comprado e Vendido?

Por trás de cada deliciosa xícara de café especial há muitos negócios. Antes que o café verde chegue à torrefação, ocorrem dias de negociação, gerenciamento financeiro e construção de relacionamentos.

Mas como funciona a venda de café verde? Ao entender melhor como ele é comprado e vendido, você pode fazer escolhas mais informadas, seja você produtor, torrefação ou consumidor.

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Finca El Injerto, Guatemala

Finca El Injerto, na Guatemala. Crédito: Finca El Injerto

O Modelo Importador/Exportador

Exportadores podem ser um produtor individual, uma cooperativa de agricultores ou um exportador terceirizado. Eles comercializam com importadores ou diretamente com torrefações. Mas os importadores têm os contatos e capital financeiro necessários para comprar grandes quantidades de grãos. Isso significa que as torrefações costumam confiar nos importadores para garantir café de qualidade de todo o mundo.

Os importadores compram grandes quantidades de grãos e os armazenam enquanto fazem vendas para torrefações. Quando o café verde é comprado por meio de uma transação importador/exportador, o importador mantém um inventário extenso contendo informações sobre cada produtor com o qual está negociando.

Isso pode incluir a época da colheita, variedades de café cultivado e quantos contêineres de grãos o produtor tem disponível. Se essas informações forem precisas, elas fornecem rastreabilidade e confiança na qualidade do produto.

Grãos de café verdes prontos para a torra.

Crédito: Neil Soque

Embora o comércio direto seja uma opção popular para aqueles que desejam mais transparência e fortes relações torrefação-produtor, os importadores também podem ser benéficos para os produtores.

Como empresas dedicadas e de grande escala, elas têm os recursos para lidar com logística em massa, obrigações internacionais e processos burocráticos semelhantes que podem ser desanimadores para torrefações, considerando-se o comércio direto.

Os importadores também representam uma cadeia de produção mais longa, com lucros divididos entre mais participantes. Mais pessoas não é necessariamente algo ruim – uma relação direta entre um único produtor e torrefador pode parecer ideal, mas ter várias partes envolvidas pode tornar a logística mais tranquila se houver obstáculos.

Alguns importadores também trabalham duro para garantir transparência e podem até apresentar torrefações para os produtores cujo café eles compram.

Cerejas de café em uma fazenda em Buon Ma Thuot, Vietnã.

Crédito: Wikimedia CommonsCC BY 2.0

Comércio Direto

O comércio direto ocorre quando os produtores vendem seus grãos verdes diretamente para a torrefação, seja individualmente ou por meio de uma cooperativa de café. A exclusão dos intermediários e do importador significa que há teoricamente maior transparência e rastreabilidade. O comprador pode visitar a origem, avaliar o produto e estabelecer um relacionamento com o agricultor.

Arturo Sáenz me conta que o comércio direto “deve resultar em um preço melhor, mais transparência e, se tudo funcionar bem, pode construir um relacionamento muito longo”.

Mas devemos lembrar que o comércio direto também envolve riscos. Sem agências que regulam o processo, o sucesso da transação depende mais da confiança entre os participantes e há mais potencial para que os negócios fracassem. Torrefações e produtores também precisam se instruir sobre procedimentos comerciais, procedimentos internacionais de importação e sobre logística.

Ena Galletti me diz que “o produtor precisa ter certeza de que [o comprador] está comprometido com a qualidade e aprecia a lealdade. Às vezes, correr o risco de fazer um adiantamento é a única maneira de gerar um vínculo duradouro com uma comunidade produtora de café. ”

Membros da cooperativa Los Maronchos em Las Vegas, Santa Bárbara, Honduras.

 Crédito: U.S. Department of Agriculture via FlickrCC BY 2.0

O comércio direto também foi criticado como sendo um termo de marketing. Existem exemplos de importadores e exportadores de “comércio direto” que tiram a negociação das mãos dos produtores, mas ainda usam o termo em seus materiais de divulgação.

O uso do rótulo não é regulamentado, portanto nem sempre está claro o que “comércio direto” realmente significa ou o quão melhor os produtores estão com esse modelo. A remoção de intermediários, em teoria, deveria significar que mais do lucro é destinado ao produtor. No entanto, como o preço do café de comércio direto é negociável e não regulamentado, ele pode não ser tão alto quanto os consumidores esperam. Esse tipo de negociação também pode ser mais demorado e arriscado para os produtores, especialmente quando as torrefações desejam comprar pequenas quantidades.

Isso não significa que o comércio direto seja algo ruim; muitos produtores defendem seus benefícios. No entanto, devemos lembrar que ele pode ter seus prós e contras.

Marta diz: “O comércio direto significa coisas diferentes para pessoas diferentes. Acho que devemos pensar em criar relacionamentos mutuamente benéficos.”

“Começa dando a todos, especialmente ao produtor, uma posição igualmente ponderada no mercado.”

Descubra mais com: Como Traders de Café Podem Melhorar o Reconhecimento de sua Marca?

Café verde cai de uma saca.

Crédito: David Joyce via FlickrCC BY-SA 2.0

Entendendo a Compra à Vista e os Contratos Futuros

Seja por comércio direto ou em um modelo de importador/exportador, existem duas maneiras principais pelas quais as torrefações compram grão verde: compra à vista e contratos a prazo.

A compra à vista ocorre quando as torrefações compram café do importador sem nenhum compromisso prévio. Ou seja, “no local”. Os grãos geralmente já estão armazenados em um armazém e prontos para serem enviados imediatamente.

Essa pode ser uma maneira cara de comprar café, porque o importador assumiu o risco financeiro comprando e armazenando os grãos e incluirá o custo disso no preço de venda. O preço também pode mudar, porque é provável que ser amarrado ao Contrato C.

Secagem de café em uma fazenda na Colômbia.

Crédito: Paula Molina Ospina

Com contratos futuros, as torrefações planejam comprar café de um determinado produtor com antecedência. Os importadores podem estar envolvidos ou a torrefação pode trabalhar diretamente com o produtor. Com esse método, há melhor rastreabilidade e as torrefações podem ter certeza de que os grãos estão frescos. Também oferece mais segurança aos agricultores.

Marta Dalton é a fundadora e CEO da Coffee Bird, na Guatemala. Ela me diz que contratos futuros são benéficos para os agricultores porque “eles tranquilizam a mente [e evitam] de se preocupar com quem vai comprar seu café”.

Os produtores podem planejar com antecedência e ter melhor acesso ao crédito com um contrato futuro seguro. Isso significa que eles podem investir em infraestrutura e equipamentos que possam elevar a qualidade do café a longo prazo.

Uma vista das plantações em Finca El Injerto, Guatemala.

Crédito: Finca El Injerto

Arturo Aguirre Sáenz é produtor na Finca El Injerto na Guatemala. Ele me diz que a compra a prazo “funciona perfeitamente nos dois sentidos, porque o produtor sabe quanto está esperando e o consumidor sabe a quantidade exata de dinheiro a gastar, além de garantir café para os próximos anos”.

Independentemente do modelo, a comunicação é crucial. “Para capacitar os produtores nesse negócio, é importante que eles tenham total entendimento das regras e tenham uma noção do que é uma indústria sustentável”, diz Ena Galletti, exportadora de café da Galletti, no Equador.

Sacas de café em um armazém na Guatemala.

Crédito: Devon Barker

Compradores no País

Você pode conhecer compradores no país como intermediárioscorretores ou coiote. Estas são as pessoas que atuam como uma ligação entre produtor e comprador. O café vendido a intermediários normalmente é de baixa qualidade e é vendido a preços muito baixos.

Os compradores no país têm reputação de buscadores de lucro, uma vez que levam essencialmente uma parte do pagamento aos produtores. Mas os cafeicultores confiam neles para ter acesso a torrefadores. Quando os produtores não possuem as conexões necessárias, o conhecimento logístico e o conhecimento jurídico, os intermediários são vitais para a venda de café.

Também é provável que sejam da mesma comunidade que os produtores com quem trabalham. Isso pode ser um fator importante em um setor baseado na confiança e na repetição das transações.

Sacas de café em uma bolsa de café no Brasil.

Crédito: Fernando Mafra via Wikimedia CommonsCC BY-SA 2.0

Especulação no Mercado Futuro

A compra e venda de café verde podem parecer simples até agora. Mas os comerciantes podem influenciar o preço do café sem nunca interagir com os grãos.

O café é comercializado como uma commodity, o que significa que é comprado e vendido em mercados regulamentados. O preço de venda do Arábica é conhecido como Contrato C, e é esse valor que afeta o preço de compra do café. Todo café é tratado como uma matéria-prima, independentemente da origem ou de outros fatores. Mesmo os preços dos cafés especiais estão geralmente vinculados ao Contrato C, mais um bônus.

Os especuladores compram e vendem preços com base em um produto – neste caso, café. O preço que negociam é o valor que os traders esperam pagar pelo produto no futuro. O café pode nem sair do armazém de origem e os especuladores não têm a intenção de possuir os grãos físicos. Em vez disso, atua como uma ferramenta de negociação usada para gerar lucro.

As ações dos especuladores afetam os padrões do mercado, e essa é uma das razões pelas quais o preço do café é tão volátil.

Saiba mais em: Compra de Café a Termo e à Vista: Prós e Contras

Café verde no Jubilee Coffee no Colorado, EUA.

Crédito: Devon Barker

Leilões

As vendas públicas de café verde são outro método de venda de grãos verdes e atraem compradores de todo o mundo. Leilões oferecem uma oportunidade para os produtores promoverem seus produtos e construírem relacionamentos pela cadeia produtiva. Isso ajuda a fortalecer o setor e fornece rastreabilidade.

Nos países produtores da América Latina, os leilões são onde você normalmente encontra os grãos da mais alta qualidade. Aqui, o sistema de leilão é uma maneira eficiente para analisar o mercado. Ele oferece uma oportunidade de ver quanto torrefações estão pagando por seu café e que tipo de grãoestão procurando. Mas é importante ter em mente que a alta qualidade desses grãos significa que você também encontrará preços acima da média.

Uma sala de amostras na Nairobi Coffee Exchange, Quênia.

Crédito: MTC Group via Flickr / CC BY 2.0

Em muitos países produtores africanos, os leilões costumam ser a maneira padrão de comprar e vender grãos. Os produtores desses países normalmente não têm contato direto com importadores e torrefadores internacionais. Portanto, os leilões costumam ser a única oportunidade de vender seus grãos.

Por exemplo, a maioria do café queniano é comprada através de um leilão central. Porém, nesses leilões, apenas os revendedores autorizados de café podem fazer lances. Os pequenos produtores não conhecem os compradores e não conseguem advogar pelo seu café.

Saiba mais. Leia: Como Relações de Longo Prazo Melhoram a Sustentabilidade na Origem?

Sacas de café verde.

Crédito: Neil Soque

Qual é o Melhor Método para Comprar e Vender Café Verde?

Não existe um método perfeito para comprar e vender café. Cada modelo envolve aprender sobre os prós e contras e os possíveis riscos. Marta diz que “a melhor maneira de comprar café é escolher a maneira como você se sente mais confortável com os riscos”.

Portanto, dê uma olhada na sua própria situação e considere seu orçamento e recursos. Identifique qual modelo se encaixa no seu nível de conhecimento e conforto na negociação.

Concentre-se em seus objetivos, desenvolva seus relacionamentos e faça alguns negócios.

Traduzido por Ana Paula Rosas.

PDG Brasil

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