25 de setembro de 2020

Como exportar café? Um guia para produtores

Você trabalhou duro o ano todo, podando cuidadosamente, fertilizando, colhendo, processando e secando seu café. Mas o trabalho não pára por aqui: agora você precisa preparar sua colheita para exportação.

Esteja você exportando e vendendo diretamente para os torrefadores ou se algum trader/importador comprou seu café, seguir as melhores práticas pode resultar em melhor qualidade do café, melhores relações comerciais e melhores preços.

E seguindo práticas não recomendadas? Você pode ver as pontuações de cupping caírem drasticamente – e seus lucros com elas.

Então, vamos dar uma olhada em como preparar seu café para exportação.

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como exportar café

Qual a sua responsabilidade ?

Alguns produtores vendem café diretamente para um exportador, permitindo que ele cuide do transporte do café. Outros trabalham com uma torrefação ou com um importador em comércio direto (direct trade), que em teoria (mas nem sempre) deve resultar em preços mais atrativos. Nesse caso, eles devem providenciar que o café chegue até o porto. Alguns produtores acabam se desdobrando e exercendo as funções de produtor, processador e exportador.

O caminho que você escolhe depende das metas do seu negócio, dos seus clientes, seu marketing, dos contratos que você assina … e muito mais.

Matti Foncha gerencia a Camarões Boyo, um coletivo agrícola com base em Camarões que exporta seu próprio café. Ele me diz: “É importante que os produtores tenham uma visão clara dos seus objetivos comerciais, bem como das opções que eles provavelmente enfrentarão em pontos importantes durante a jornada do café até o mercado final”.

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colheita

Entenda seu contrato

Mesmo se você não estiver exportando seu café, provavelmente ainda terá um certo nível de responsabilidade por ele durante o processo de exportação. Isso depende dos INCOTERMS no seu contrato.

Se você não estiver familiarizado com os INCOTERMS, eles podem parecer um idioma diferente. Mas, na verdade, são apenas um conjunto de termos que definem o ponto em que você deixa de ser responsável pelo café – por sua qualidade, por seu transporte, por sua papelada e muito mais.

E, como Matti me lembra, “o ponto de entrega nem sempre é o mesmo em que a propriedade legal muda de produtor para comprador”.

Como exportador experiente, Matti concordou em me explicar alguns dos INCOTERMS mais comuns:

FOB – Free On Board: “O produtor cumpre todos os regulamentos e taxas de exportação até o café ser carregado a bordo do navio de transporte; comprador paga frete marítimo e seguro “.

EXW – Ex Works: “O comprador assume a propriedade e o risco de movimentação e armazenamento a partir do [momento em que assume a propriedade].” Normalmente, isso se refere ao transporte terrestre de um armazém.      

CFR – Cost and Freight (Custo e frete): “O produtor / exportador entrega café, normalmente em seu porto de descarga; o comprador paga pelo seguro (o produtor pode ser responsável por qualquer deterioração e escassez decorrente do transporte se o café não for adequadamente embalado). ”      

CIF – Cost Insurance Freight (Custo do Seguro do Frete) “O produtor/ exportador paga pelo produto até o porto de descarga, incluindo o seguro; o comprador é responsável pelos encargos de importação`”.      

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Os produtores, antes de assinar um contrato ou concordar com um preço, devem saber exatamente qual INCOTERM está sendo discutido e o que isso significa para você. O CIF pode ser muito mais caro e muito mais arriscado que o FOB.

incoterms

Exportando você mesmo: risco versus oportunidade

Então, você deve exportar por si mesmo? Vender para um comprador no país de destino? Negociar contratos FOB com torrefadores de comércio direto (direct trade) ou importadores especializados?

Esta é uma grande decisão. Quanto mais responsabilidade você assumir pela exportação, maior o risco, maior o custo e maior a oportunidade de lucro.

Em teoria, a exportação de café deveria levar a maiores lucros. O mesmo vale para o FOB em comparação com a venda direta para um comprador interno no país. Mas isso depende dos seus sistemas.

Transportar café em condições precárias pode causar perdas (em determinadas embalagens, mesmo se armazenadas corretamente, o café pode perder até 10 pontos de cupping em um ano ). A ineficiência pode fazer os custos aumentarem mais rapidamente que a renda. E a má sorte pode atingir até os produtores mais organizados e cautelosos.

Você também precisa considerar o seu:

● Fluxo de caixa – você precisa ser pago imediatamente ou pode esperar até exportar o café para o país de destino e então vendê-lo?      

● Qualidade do café – certos lotes valem mais o investimento      

● Opções de destino e transporte      

E lembre-se, a decisão também dependerá do que seu parceiro de negócios deseja – e de seus contatos e marketing. Afinal, é fácil decidir trabalhar com um torrefador de comércio direto (direct trade). Encontrar e assinar um contrato comercial pode ser muito mais difícil.

como exportar café

Pontos práticos que você precisa considerar

Newerley Gutierrez, produtor e exportador de Monteverde Coffee Farm, Tolima, Colômbia, tem mais de 15 anos de experiência em café. Ela me diz: “Se você deseja exportar diretamente, deve aprender como fazê-lo adequadamente. Nenhum de nós nasceu sabendo exportar, mas é algo que você deve aprender e deve estar preparado para atender aos requisitos com os quais se comprometeu. ”

Isso é verdade caso você esteja exportando ou apenas vendendo seu café a um comprador ou intermediário do país. Há muitos pontos práticos que você deve considerar para manter a qualidade do café , garantir a entrega pontual e, finalmente, satisfazer seus parceiros de negócios .

Porque, depois de tanto trabalho, você não quer perder uma venda ou ser obrigado a reembolsar os compradores porque o café atrasou no transporte, danificou ou simplesmente não está de acordo com as expectativas do comprador.

Então, vamos dar uma olhada em algumas pontos que você deve considerar:

cerejas de café

Negociação e preços

Uma venda bem-sucedida de café deve começar com um comprador. É hora de adotar uma mentalidade mais comercial.

Em uma venda, você deve sempre estar ciente do preço real do café. Isso significa conhecer as flutuações do mercado internacional , a qualidade e o valor do seu café, quanto custa produzir esse café e quanto uma determinada oferta realmente representa.

Newerley explica: “Um aspecto importante da venda é que os produtores devem tomar consciência de gerenciar coisas simples, como a conversão de dólares americanos em pesos (ou reais), libras americanas em quilos ou a conversão de sacas de café pergaminho para café verde”.

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Amostras

Como Chris Kornman escreveu no PDG , “Provar e aprovar amostras antes da compra é uma etapa crítica no processo de aquisição do café. Os contratos e as expectativas devem levar em consideração quando e onde o café é amostrado e quem é responsável por sua preservação da qualidade, a qualquer momento. “

Se você estiver vendendo diretamente para torrefadores, eles irão solicitar amostras. É uma questão de concordar com o seu torrefador sobre quais amostras , quando elas chegarão e o que cada parte é responsável. Em seguida, certifique-se de manter o cronograma definido.

Tempo

Isso tem um enorme impacto na qualidade do café e nos negócios bem-sucedidos.

Matti acredita que o prazo ideal “desde a colheita até o porto de exportação deve ser de três a seis meses”. Por que a variação? Porque o café é colhido e seco em diferentes lotes, mas depois exportado em conjunto. Certifique-se de que todo café dentro de um lote esteja dentro desse intervalo de três meses.

Isso também pode ditar sua programação de processamento. Matti diz: “A despolpação, a fermentação, a lavagem e a secagem da cereja devem ocorrer poucas horas após a colheita, não dias. [Mas] cerejas secas e pergaminhos podem ser armazenados por alguns meses. O processamento a seco só deve ser iniciado quando o volume total de café a ser exportado estiver pronto e os grãos devem ser protegidos e enviados para o porto o mais rápido possível após o processamento a seco. ”

como exportar café

Condições do armazém

Entre a colheita / processamento e a exportação, o café aguardará no armazém. E as condições lá podem ter um enorme impacto na qualidade do café. As más condições podem desbotar rapidamente o café, prejudicando os sabores, aromas e as notas de cupping. Tenha certeza de:

● Mantenha os níveis de umidade, temperatura e oxigênio estáveis ​​e relativamente baixos.      

● Mantenha o café fora da luz solar direta.      

● Escolha a embalagem certa. Os sacos de juta são mais baratos, mas não protegem o café da umidade ou do oxigênio.      

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Embalagem

Você deve considerar a embalagem do café no armazém e durante a exportação / transporte. Uma embalagem de boa qualidade minimizará o risco de perda da qualidade do café – embora muitas vezes a um custo mais alto. Isso deve ser discutido com o comprador antecipadamente, e o contrato deve indicar qual embalagem será usada e quem pagará por ela.

sacos de café

Transporte

Lembre-se de que o transporte pode sofrer atrasos devido a tráfego inesperado, acidentes, organização deficiente e muitos outros fatores. Essa é outra razão pela qual uma boa embalagem é tão importante: você nunca terá certeza de quanto tempo o café  levará para chegar.

No entanto, você deseja minimizar esses problemas com os atrasos. Tente manter o sua própria programação. Segundo Newerley, os motivos mais comuns para uma exportação atrasar incluem “atrasos inesperados no processamento de café na usina de beneficiamento a seco”, o que, por sua vez, causa um “atraso na saída do porto e, por sua vez, uma chegada tardia”.

Regulamentos Locais e Internacionais

Você conhece os requisitos legais para exportar café do seu país? E sobre importar café para o país de destino?

Matti me diz: “Como muitos dos processos são regulados pelos governos, o produtor / exportador deve estar totalmente familiarizado com eles ou contratar os serviços de agentes de exportação para garantir o sucesso”.

Seu café também precisará, sem dúvida, ser acompanhado por papelada. Certifique-se de ter várias cópias dele.

Matti sugere: “Idealmente, os produtores que desejam exportar diretamente seu café devem preparar uma lista de verificação e um fluxograma indicando os requisitos das autoridades governamentais e de logística portuária – documentação, transporte de contêineres no porto, pagamentos etc.”

Eles fornecem uma representação visual do que será esperado de você (e do comprador) em todas as etapas, o que significa que sua entrega tem menor probabilidade de sofrer atrasos porque você não obteve a assinatura correta em um formulário ou ninguém comprou um seguro.

selecionando cafés para exportação

Kwang Jung Ahn, à esquerda, e Ho Jung Kang, à direita, inspecionam o café seco em uma visita aos Camarões Boyo. Crédito: Matti Foncha

Preparando cafés para exportação: não é fácil, mas vale todo o esforço. Prestar atenção à embalagem, documentação, cronograma de exportação e muito mais pode proteger a qualidade do café, garantir que os compradores continuem satisfeitos e, finalmente, resultar em melhores preços e relações comerciais mais duradouras.


Traduzido por Daniel Teixeira.

Crédito das imagens: Ana Valencia, Angie Molina, CONACYT, Matti Foncha, FAZCOMEX

PDG Brasil

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