14 de junho de 2020

Os Prós e Contras do Cultivo de Café Orgânico

O assunto café orgânico pode dividir opiniões. Para quem é a favor, os benefícios ambientais da produção orgânica são óbvios. Os que estão do lado oposto podem mencionar o processo de certificação ineficiente e caro, e o fato de que quaisquer resíduos químicos serão eliminados no processo de torra.

A produção de café orgânico pode ser mais trabalhosa e dispendiosa do que os métodos não-orgânicos. Então, por que você escolheria cultivá-lo? Vamos dar uma olhada no que está envolvido na produção de café orgânico.

Leia em espanhol: Cultivar Café Orgánico: Ventajas y Desventajas

Os selos americano e europeu para produtos orgânicos.

Como Funciona a Certificação Orgânica?

Não existe um conjunto único internacional de padrões para o café orgânico. Nos EUA, os padrões são ditados pelo Programa Orgânico Nacional (NOP) do USDA. A União Europeia afirma que “todos os produtores, beneficiadores ou comerciantes de alimentos que desejam comercializar seus alimentos como orgânicos precisam ser registrados em uma agência ou órgão de controle. A entidade ou órgão de controle é responsável por verificar se o operador age em conformidade com as regras orgânicas. Cada país da UE pode decidir se é um organismo público ou privado, mas todos eles verificam se as regras da União Europeia sobre produção orgânica são seguidas.” Muitos outros países têm padrões semelhantes.

A certificação de fazendas orgânicas é realizada por agências credenciadas. Essas agências geralmente trabalham em vários países produtores e são acreditadas por vários padrões para atender a vários mercados.

Por exemplo, uma agência sediada nos EUA passará pelo USDA NOP para ser credenciada para certificar produtos como orgânicos nos mercados dos EUA. Se eles trabalham com uma fazenda que também deseja vender seu café no Japão como orgânico certificado, a agência precisaria ser credenciada pelo JAS (Japan Agricultural Standards).

Crédito: Juan Vargas

O Processo de Certificação Orgânica

Pode ser demorado e oneroso para uma fazenda ser certificada como orgânica. A fazenda precisa passar por uma “conversão”, um período de três anos sem usar pesticidas ou fertilizantes sintéticos, antes de poder ser certificada. Durante e após esse período, você deve demonstrar sua capacidade de atender aos requisitos específicos dos padrões orgânicos do mercado. Para fazer isso, você deve desenvolver e implementar um plano aprovado para o gerenciamento orgânico do terreno.

Esse plano deve abranger o manejo de plantas daninhas e pragas, detalhar quais fertilizantes são usados ​​e, quando possível, incluir um sistema de cobertura vegetal para proteger e reabastecer a saúde do solo. Se você tiver café orgânico e não-orgânico em sua fazenda, deve ser estabelecida uma zona tampão para evitar qualquer contaminação por fertilizantes sintéticos ou pesticidas. 

Todos os dados e opções de gerenciamento precisam ser documentados para que os auditores das agências certificadoras possam verificar se as práticas planejadas estão sendo implementadas.

Crédito: Fernando Pocasangre

Os procedimentos de colheita e pós-colheita também devem seguir os princípios orgânicos. Isso significa que os safristas não podem usar as mesmas sacolas para transportar cerejas de café não-orgânicas e orgânicas. O equipamento deve ser cuidadosamente limpo entre os lotes. Se a mesma máquina for usada para transportar café orgânico e não-orgânico, uma pequena quantidade que não possa ser vendida como orgânica deve passar pela máquina para eliminá-lo.

Quando o café sai da fazenda, ele precisa ir a uma instalação orgânica certificada e, se essa instalação também manipular café não-orgânico, deve ter procedimentos adequados para impedir a mistura de lotes. Essa cadeia de suprimentos separada se estende até a torrefação, que também deve ser certificada como orgânica para usar o rótulo orgânico em suas embalagens.

Crédito: Nicholas Yamada

Como Funciona a Produção de Café Orgânico

O café orgânico é contrastado com o café “convencional”, mas até as décadas de 1960 e 1970, quando os produtores começaram a plantar novas variedades de maior rendimento em pleno sol, em fileiras mais apertadas e com a adição pesada de insumos químicos, o cultivo orgânico era o convencional. A produção orgânica não é de baixa tecnologia nem antiquada. Pelo contrário, é uma tradição viva de práticas agrícolas que datam de milhares de anos.

O objetivo do café tecnificado é basicamente aumentar a produtividade de um determinado lote de terra. O objetivo e o desafio da produção orgânica é criar naturalmente um clima saudável para os cafeeiros, enquanto mantém a produtividade diante de doenças, pragas e mudanças climáticas.

Crédito: Nicholas Yamada

Juan Vargas é diretor de café das Fazendas Klem em Luisburgo, Minas Gerais, Brasil. Os cafés produzidos aqui são totalmente orgânicos. “É importante criar solo e um ecossistema que funcione por si só”, diz ele.

“Quanto mais uma planta é nutrida com alimentos disponíveis no solo, melhor sua resistência a qualquer praga ou doença… A planta come, não bebe. O coração da planta são as raízes pelas quais os alimentos, microrganismos e ecossistema disponíveis trabalham para nutrir a planta.”

Existem várias maneiras de alimentar e proteger o café sem o uso de produtos químicos. O mais óbvio é o uso de compostos feito de polpa de café rica em nitrogênio e potássio.

Crédito: Nicholas Yamada

A produção orgânica é tipicamente associada a um menor rendimento, mas nem sempre é o caso. Juan diz que “alcançamos os mesmos rendimentos da produção convencional devido ao nosso processo de gerenciamento”.

No entanto, os custos de mão-de-obra tendem a ser mais altos do que na produção não-orgânica. Misturar o composto e depois transportá-lo para os campos e remover ervas daninhas à mão sempre será mais trabalhoso do que pulverizar herbicidas sintéticos ou fertilizantes.

Mas existem alguns pequenos agricultores que são orgânicos por padrão. Eles podem não ser certificados devido às despesas e à papelada envolvida no processo, mas como fertilizantes e pesticidas químicos também são muito caros, eles são “orgânicos passivos”. Isso inclui a maioria dos pequenos produtores etíopes.

Crédito: Juan Vargas

Desafios da Produção e Certificação Orgânica

O custo é de longe o maior obstáculo para os agricultores considerando a certificação orgânica. Você será responsável pelo custo da inspeção, que inclui as despesas de viagem e hospedagem dos auditores de certificação, bem como as taxas anuais de certificação. Isso efetivamente coloca a certificação orgânica fora do alcance da maioria dos pequenos agricultores, a menos que façam parte de uma cooperativa; nesse caso, os custos de certificação podem ser divididos entre todos os membros.

É fácil ver por que o café orgânico custa mais do que o café da mesma qualidade que não é certificado como orgânico. O custo da certificação, a mão-de-obra adicional necessária e todo o trabalho extra necessário para manter a rastreabilidade aumentam.

Juan me disse que o diferencial de preço do café orgânico é justo “porque produzir café orgânico é mais caro que os métodos convencionais… tudo procura garantir a rastreabilidade e a qualidade do produto, a fim de evitar qualquer tipo de contaminação”.

Crédito: Fernando Pocasangre

Além do ônus da certificação e do trabalho adicional da agricultura orgânica, existem outros desafios na produção orgânica.

Uma fazenda orgânica com biodiversidade pode ser mais saudável e resistente a longo prazo do que uma fazenda de café com sol pleno e tecnificada, mas é difícil quantificar essa resiliência. Ao comparar uma fazenda orgânica a uma fazenda não-orgânica, a fazenda não-orgânica pode parecer mais bem-sucedida, porque essa avaliação se baseia apenas em fatores fáceis de medir, como rendimento e custo de produção.

Os requisitos de certificação também não têm flexibilidade e não são necessariamente adaptados à cafeicultura. Por exemplo, um agricultor com uma fazenda ecologicamente vibrante à sombra total que pulveriza uma quantidade modesta de fertilizante algumas vezes por ano seria desqualificado da certificação orgânica. Mas outro agricultor que cultiva café a pleno sol e que contamina as fontes de água locais com o processamento de águas residuais pode ser elegível. 

É improvável que os consumidores sejam informados sobre essas nuances e podem simplesmente ver uma certificação orgânica como mais ecológica.

Crédito: Fernando Pocasangre

Pragas e doenças também podem ser um desafio. Com a produção orgânica, o foco deve estar na prevenção. Manter sombra, drenagem e saúde do solo adequadas minimiza as condições nas quais pragas e doenças de plantas podem prosperar. 

Se houver um surto, o primeiro passo é a remoção física de plantas infectadas e armadilhas manuais para pragas. Ambos os métodos são mais trabalhosos do que os métodos não-orgânicos, mas são gerenciáveis. 

No entanto, se ocorrer um surto repentino e drástico de doença, como um surto grave de ferrugem nas folhas de café, o agricultor pode ter que escolher entre perder a colheita inteira ou pulverizar um produto químico e perder a certificação. Com o processo demorado e as despesas incluídas na certificação orgânica, bem como a perda potencial de compradores que se comprometeram com um pedido de grão orgânico, essa não é uma escolha fácil.

Crédito: Fernando Pocasangre

Por Que Cultivar Café Orgânico?

Com todas essas desvantagens do cultivo de café orgânico, por que você o escolheria? Os dois principais motivos são apelo comercial e questões ambientais. 

O café orgânico pode ser vendido como um premium em relação ao café não-orgânico. Estes prêmios destinam-se a compensar os custos de certificação, mas eles também são uma estratégia modesta para ganhar mais para o seu café em face dos preços baixos de Contrato C. Os cafés vendidos nos termos do Fairtrade/Comércio Justo que também são certificados como orgânicos recebem automaticamente um prêmio de 30 centavos por libra.

É difícil avaliar as perspectivas de mercado para o café orgânico – as vendas orgânicas certificadas não são agregadas centralmente e, portanto, difíceis de rastrear. Um relatório sobre os dados de comércio orgânico dos EUA de 2011 a 2016 afirma que as importações e os preços pagos pelo café orgânico nos EUA são praticamente estáveis, mas diminuíram nos últimos anos. Mas um relatório de 2018 sobre mercados sustentáveis observa que a área dedicada à produção orgânica está aumentando em todo o mundo. 

Por fim, cabe a você decidir por si próprio se vale a pena buscar a certificação orgânica por razões puramente financeiras. Leia o que é necessário, os custos reais e avalie se você pode trabalhar com uma cooperativa para torná-la mais acessível.

Crédito: Fernando Pocasangre

Para muitas pessoas, a decisão de ser certificado como orgânico é mais do que um cálculo econômico frio. Juan diz que as Fazendas Klem estão motivadas a sair do “câmbio convencional e volátil de Nova York”, mas escolhe os métodos orgânicos em primeiro lugar, “por causa da filosofia de vida, estar em um microclima privilegiado que permite a produção sustentável”.

Na era das mudanças climáticas, agricultores e consumidores estão cada vez mais conscientes do impacto mais amplo do uso de métodos não-orgânicos. A ênfase da agricultura orgânica na saúde do solo tem uma série de efeitos benéficos para o ecossistema, incluindo o armazenamento de carbono.

E, como destacado em um artigo da SCA de 2016, enquanto os consumidores têm poucas razões para temer que os pesticidas entrem em uma xícara de café, os trabalhadores agrícolas podem ter motivos de preocupação. Ele afirma: “Armazenamento inadequado, proteção inadequada da equipe e falta de treinamento para manipuladores de pesticidas não são incomuns nos países em desenvolvimento e resultam em trabalhadores agrícolas expostos diretamente a toxinas”. 

Para torrefadores, ética e economia também são os principais fatores a serem considerados. Se a certificação orgânica permitir que você coloque seus pacotes nas prateleiras de uma loja de alimentos orgânicos local, pode valer a pena fazer um esforço extra para obter a certificação e buscar café orgânico certificado.

Leia também: Desvendando os Mitos do Pós-Colheita do Café

Crédito: Juan Vargas

Cultivar café orgânico pode ser uma proposta arriscada e desafiadora, e os custos da certificação podem representar um fardo significativo para os produtores. Mas se você já está propenso à agricultura sustentável, os benefícios ambientais e de saúde de um método orgânico podem ser atraentes. Também pode colocá-lo em uma posição melhor no mercado, porque você terá um produto premium.

Não é fácil criar uma cadeia de produção paralela para o café orgânico. Mas, considerando todo o trabalho em todas as etapas da cadeia produtiva, é surpreendente que o café orgânico custe apenas alguns dólares a mais por libra quando chegar ao consumidor final.

Crédito da foto destacada: Juan Vargas.

Traduzido por Ana Paula Rosas.

Observação: antes de implementar os conselhos deste artigo, também recomendamos a consultoria de um técnico especialista local, pois as diferenças de clima, tipo de solo, variedades, métodos de processamento e muito mais podem afetar as melhores práticas de produção e processamento.

PDG Brasil

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