7 de junho de 2020

Processo de Restauranção de uma Máquina de Espresso de Alavancas de 70 anos

Há algo especial em uma antiga máquina de espresso de alavancas. Concebidas por Achille Gaggia, logo após a Segunda Guerra Mundial, elas são tipicamente consideradas as primeiras máquinas de espresso. No mínimo, elas foram as primeiras a produzir crema, aquela camada marrom-dourada que é – correto ou erroneamente – frequentemente considerada a marca registrada de uma dose de café espresso.

Passados mais de 70 anos, elas evoluíram para máquinas de bomba totalmente automatizadas e controladas eletronicamente via PIDs e perfis de pressão ajustáveis: uma representação clara desses tempos insensíveis que vivemos, em minha opinião.

Então quando  me propus a construir ou restaurar uma velha máquina de espresso de alavancas, não foi apenas porque eu precisava de uma máquina confiável e de alta qualidade por um décimo do preço de uma La Marzocco e com peças de reposição acessíveis no meu canto do planeta (Buenos Aires). Isso também veio do meu fascínio por essas lindas peças. Hoje, minha máquina de alavancas está totalmente operacional e sendo utilizada em uma cafeteria. Continue lendo para descobrir como fiz – e como você também pode fazer.

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máquina de espresso de alavancas

A máquina da Kerch, uma máquina de espresso de alavancas restaurada, pronta para uso. Crédito: Arkadiy Chernov.

O que é uma Máquina de Espresso de Alavancas?

Antes de começar, deixe-me explicar rapidamente o que uma máquina de espresso de alavancas realmente é. Máquinas de espresso já existiam antes das de alavanca – mas o café que elas produziam eram pouco parecidos com os espressos que temos hoje. Embora apresentassem cabeças de grupo, discos compactados e tempo de extração relativamente curtos (45 segundos ou mais), elas não atingiam mais que 2 bars de pressão.

E é a pressão que faz o espresso.

O design de Gaggia mundou para sempre a nossa definição de espresso. Uma alavanca foi utilizada para elevar um pistão e encher a câmara de extração, ao mesmo tempo que também comprimia uma mola. O barista então liberava a alavanca para que a mola comprimida se estendesse e aplicasse até 10 bars de pressão. O resultado: um delicioso espresso artesanal.

O conceito pode até ser simples, mas transformou a história do café. Ainda hoje, máquinas de alavancas são capazes de fazer um excelente café espresso.

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shot de café

Daniel Borras faz um ristretto em nossa máquina de alavancas na festa da Jameson Whiskey. Crédito: Jameson Whiskey.

Ferramentas, Recursos & Colaboradores

Nenhum projeto pode ter sucesso sem suporte! Minha fonte inicial foi o Open Source Lever Project, uma publicação que começou no Home Barista Forum por Andre (nome de usuário EspressoForget). Ela continha uma quantidade massiva de informações sobre assuntos como quais cabeças de grupo considerar.

Eu também usei o fórum para contatar Frank Durra e, por meio dele, conseguir duas cabeças de grupo Bosco. O design da Bosco apresenta um mecanismo clássico de mola dupla dos anos 1950, que pouco mudou ao longo dos anos.

Eu também me associei a meu colega de trabalho, Javier Moro (que desde então se juntou a mim para trabalhar em meu negócio online de torrefação Kerch Coffee Roasters).  A abordagem prática de Javier fez dele um ótimo colaborador neste empreendimento.

Assim, com essas ferramentas, recursos e companheiros de equipe, veja como restauramos com sucesso uma máquina de espresso de alavanca dos anos 1950.

construindo uma máquina de espresso de alavancas

O início do nosso projeto: uma máquina de espresso antiga, com compressor externo ao fundo, que nós compramos por apenas US $100. Crédito: Arkadiy Chernov

1. Caçada aos Clássicos

Restaurar uma máquina de espresso antiga é mais fácil do que começar do zero. Felizmente, lugares como eBay tem muitas máquinas de espresso antigas implorando para serem restauradas e modificadas. Elas precisarão de variados níveis de trabalho, permitindo a você escolher o que fazer com elas.

A vantagem de obter uma máquina antiga é que você está adquirindo uma caldeira, uma estrutura, painéis, e, quem sabe, um elemento de aquecimento que funciona e válvulas. No entanto, outra opção seria ir a um fornecedor de peças de máquina de espresso e escolher quaisquer componentes que atendam às suas necessidades.

No nosso caso, a máquina que nós conseguimos é uma versão argentina da La San Marco 85, produzida por Filcafe S.A. Ela apresentava uma configuração clássica antiga com um compressor externo e um aquecedor a gás com regulador ajustável – especificações as quais poderíamos apenas sonhar, uma vez que não precisávamos do compressor.

Nada de eletrônicos, nem válvulas elétricas (solenóides) entupidas para lidar: apenas energia a vapor.

caldeira

Uma caldeira funcional e uma estrutura, tudo que desejávamos para o nosso projeto: Crédito: Arkadiy Chernov

2. Desmonte, Limpe e Recupere o Que Você Puder

A Filcafe veio suja, empoeirada e com grande acúmulo de minerais na caldeira e nos dutos. Um desmonte completo seguido de limpeza foi necessário

partes da máquina

Vista de cima de uma máquina de espresso antes da limpeza: espessas camadas de sujeira e fuligem são visíveis. Crédito: Arkadiy Chenov.

Bastante detergente, imersão em solução de vinagre durante a noite, esfregões, e um polidor de automóveis para o exterior deram conta do recado. A máquina foi inteiramente recuperada, exceto por uma pequena junta da caldeira (um selo de borracha).

A pequena caldeira antes e depois da descalcificação: Crédito: Arkadiy Chernov.

Em seguida, remontamos a máquina, conferimos a carga da mola da válvula de segurança executamos um teste para avaliar se o funcionamento do regulador de gás estava adequado. Em particular, nós queríamos verificar a transição de desligado à chama completa e vice-versa.

Felizmente, correu tudo bem. Estava na hora de modificar a máquina para adaptar as cabeças de grupo das alavancas.

caldeira restaurada

As cabeças de grupos originais, válvulas de água quente e de vapor, vistas de frente, após uma limpeza inicial. Crédito: Arkadiy Chernov

3. Montagem dos Grupos de Alavancas

Para o próximo passo, nós tivemos que remover a cabeça de grupos original e dar espaço para a montagem do grupo de alavancas.

duas cabeças de grupo

De um para dois grupos. Crédito: Arkadiy Chernov

Grupos de alavancas são pesados. Sendo assim, você precisará assegurar que elas tenham o suporte adequado e que sua máquina permaneça balanceada. A obtenção de um perfil de aço em formato de U, de um quarto de polegada, funcionou para nós, e a montamos o mais atrás possível para um equilíbrio adequado.

Habilidades básicas de perfuração, corte e solda de metais foram requeridas para essa etapa. Lembre-se de usar perfurações piloto e bastante lubrificante durante a perfuração, e proteção ao cortar e soldar!

oficina

Javier Moro solda o novo suporte do grupo de alavancas na montagem da nova máquina de espresso.

4. Tubulação

Usamos o roteamento original da tubulação, mas, com a instalação de duas cabeças do grupo de alavancas, ainda era necessário um novo encanamento dentro da máquina. Você precisará de uma ferramenta dobradora, cortadora de cano/tubo e uma tocha para esse tipo de trabalho.

Compramos tubos de cobre em uma loja de ferramentas, mas eles eram rígidos. Isto significa que tivemos que tratá-los com calor para que amolecessem o suficiente para dobrar e moldar.

Ah, e uma palavra de alerta: quando escolher válvulas, bicos de água quente e tubos de vapor de diferentes fabricantes, preste bastante atenção aos tipos e tamanhos de roscas. No nosso caso, as cabeças de grupo Bosco eram métricas, enquanto a máquina usava roscas de padrão britânico. Tivemos que comprar um adaptador.

detalhe de máquina de café espresso

Tubos recentemente roteados. Crédito: Arkadiy Chernov

5. A Montagem & Ajuste Finais

Estávamos quase prontos: tudo que restava fazer era mudar a cor para um verde clássico VW Beetle para um visual mais retrô. Adicionamos também um painel de alumínio 2024 polido para cobrir a estrutura de aço rústica sobre a qual as cabeças de grupo foram montadas. Fora isso, todo o restante que usamos veio de uma máquina de espresso antiga!

processo de restauração

Pronta para a pintura e teste. Crédito: Arkadiy Chernov

O desafio final, e provavelmente o objetivo mais importante de todo processo, foi assegurar uma extração adequada de café espresso por toda extensão operacional. Aumentamos a pressão da caldeira para 1.4 bar a fim de conseguir estabilidade quando na faixa de operação. Afinal, grandes pedaços de metal como esse são excelentes trocadores de calor, tornando-os difíceis de operar como um novato.

máquina de espresso de alavancas restaurada

Pronta para sair da oficina e ir para a cafeteria. Credito: Arkadiy Chernov

E foi isso! Tínhamos renovado com sucesso uma máquina de espresso dos anos 1950, deixando-a adequada para o serviço em uma cafeteria moderna. O que começou como uma aventura acabou superando todas as nossas expectativas.

doce de café espresso

Extraindo um espresso em nossa máquina. Crédito: Arkadiy Chernov.

Então, o que aconteceu com ela? Bem, ela chamou a atenção de Allan Dorgan, um imigrante britânico e fundador do Full City Coffee House, uma das lojas que lidera o café especial em Buenos Aires, Argentina. Um fã fervoroso do maquinário moderno e eficiente, Allan usava uma La Marzocco FB80 como seu cavalo de força. Contudo, nossa modesta alavanca dupla encontrou o caminho para seu café. Ele a usa em suas aulas de barista e a máquina até ganhou seu ingresso para um evento da Jameson Whiskey realizado em sua loja.

Perguntamos a Allan por que ele escolheu nosso patinho feio quando ele já tinha um lindo cisne na forma de sua La Marzocco. Ele respondeu: a pura representação de simplicidade, confiabilidade, tradição e paixão.

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Traduzido por Sandra Sousa.

PDG Brasil

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