23 de abril de 2020

Como Mudar de Café Commodity para Especial?

Hoje, Miguel Moreno e família confiam que o café pagará suas contas no ano seguinte, colocará comida na mesa e permitirá que seus filhos frequentem a escola infantil. Mas nem sempre foi assim. No passado, os baixos preços do café commodity levou Miguel a se mudar para os EUA com seus irmãos. Ele não via futuro para si em sua fazenda.

Então, o que mudou? Ele mudou do commodity para a produção de café especial.

As diferenças entre esses dois mercados são fortes. Para os produtores, a produção especializada pode oferecer grandes recompensas: maiores margens de lucro, maior apoio de parceiros comerciais, entre outras.

No entanto, toda mudança traz riscos. E isso é particularmente verdade para a mudança para o mercado de especiais. Não só exige um grande investimento, como também os produtores permanecem vulneráveis ​​a muitos fatores fora de seu controle: mudanças climáticas, pragas, flutuações cambiais e outros fatores.

Conversei com Miguel e outros produtores para descobrir seus conselhos sobre a transição para um mercado cafeeiro mais lucrativo, gratificante e sustentável – enquanto também minimizador de risco.

Leia em espanhol: Productores: ¿Cómo Pueden Pasar del Café Comercial al de Especialidad?

visitando fazenda

A família Moreno com a equipe da Collaborative Coffee Source e seus clientes em Santa Bárbara, Honduras. Crédito: Benjamin Paz

Commodity X Specialty: Quais as Diferenças?

O mercado de café commodity gira em torno do preço C , um preço de mercado internacional para o café verde que é estabelecido em Nova York. No entanto, ele é definido com base na oferta e na procura – o que significa que não considera custo de produção e exportação, diferenças de qualidade e assim por diante.

Para muitos produtores, o preço C não é suficiente para operar com lucro. (De fato, em julho de 2017, um estudo do Fairtrade descobriu que mesmo os agricultores certificados frequentemente não ganhavam o suficiente para sobreviver com a produção de café.)

As flutuações do preço C também levam à instabilidade, o que significa que os produtores nunca sabem realmente quanto receberão pela saca de café até o dia da venda. Acrescente a isso as variações de moeda – um produtor é pago em dólares americanos, mas seus custos estão na moeda local – e este é um cálculo complexo e muitas vezes confuso.

No café especial a qualidade deve determinar os preços, e não a oferta e a procura. Ou ao menos deveria. Os compradores, em teoria, pagam bônus de preço pelo café de melhor qualidade. Com uma tendência para cadeias de produção mais curtas e comércio direto, torrefações e traders podem optar por assinar contratos de longo prazo e investir na infraestrutura ou no treinamento de um produtor.

Vale a pena notar que os preços pagos pelo café especial estão frequentemente, mas nem sempre, ainda vinculados ao preço C e, portanto, sofrem as mesmas flutuações. No entanto, o argumento é que o bônus pago é suficientemente alto para que a produção de café se torne não apenas economicamente viável, mas também uma opção comercial atraente e lucrativa.

No entanto, produzir café dessa qualidade também requer maior investimento – e se a qualidade cair um ano, talvez devido às chuvas na época da colheita ou ao aparecimento de ferrugem nas folhas do café , os bônus de preço não serão garantidos.

Além disso, enquanto os compradores de cafés especiais normalmente pagam bônus de preços, há uma falta de transparência sobre o quanto eles realmente pagam. Isso pode dificultar a negociação dos produtores ou a responsabilização das empresas.

A mudança do mercado de café commodity para o café especial pode abrir as portas para preços sustentáveis ​​- o tipo de preço que permitirá aos produtores um padrão de vida decente, uma maneira de reinvestir em suas fazendas e infraestrutura e, finalmente, continuar melhorando a qualidade do café. No entanto, os desafios disso não devem ser negligenciados.

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terreiro suspenso de café

Jesus Moreno (no fundo, à direita) e Mabel Moreno (na frente, à direita) inspecionam café lavado em secagem na Finca El Filo. Crédito: Collaborative Coffee Source

O que Você Precisa para Fazer a Transição para a Produção de Café Especial?

Digamos que um produtor tenha decidido fazer a transição. A próxima coisa que eles precisam considerar é como fazer essa mudança. Lembre-se de que este é um processo de passo a passo que requer investimento, paciência e persistência.

Benjamin Paz é representante de relações comerciais dos produtores do Beneficio San Vicente na região de Santa Bárbara, em Honduras. Ele ajuda a organizar os produtores à medida em que eles vendem seus cafés de qualidade especial, um projeto que começou em 2008 quando firmaram a parceria com a Collaborative Coffee Source. Ele me diz que a falta de recursos pode ser a parte mais difícil de fazer essa transição.

A construção de terreiros suspensos para a secagem de café, bons tanques e usinas de lavagem, o trabalho necessário para colher seletivamente cerejas e revirar o café em secagem… há muito para um produtor investir.

E os produtores não precisam apenas investir em nova infraestrutura: eles também precisam alocar tempo para experimentar, aprender novas técnicas e melhorar lentamente a qualidade e a consistência. Pode levar anos de muita tentativa e erro para ser capaz de produzir consistentemente um café que os compradores especializados desejam.

Avaliar constantemente os processos e rastrear dados para que os resultados possam ser replicados é a chave para o sucesso. Também é importante encontrar os parceiros de negócios certos. Os produtores precisam trabalhar com compradores que os apoiarão na transição, à medida que aprendem sobre o potencial de seu café e melhoram seus processos.

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Mas encontrar esses parceiros também não é fácil. A importância do marketing não pode ser deixada de lado. Também pode levar muito tempo para um produtor criar um nome para si mesmo entre os compradores especializados – e ainda mais para encontrar o tipo de parceiro que investirá neles.

Então, o que os produtores podem fazer para garantir que a transição demorada e exigente de investimentos para a especialidade seja financeiramente possível? Eles precisam ir devagar.

cerejas de café

Produtores catam cerejas de Catuaí Vermelho na Finca Chely, El Cielito, Santa Bárbara, Honduras. Crédito: Henry Wilson

Uma Transição Lenta É Economicamente Viável 

Encontrar outras formas de renda ao passar para a produção de café especial é essencial para apoiar a transição. Isso pode significar continuar vendendo parte da safra para o mercado de café commodity. Ao mesmo tempo, os produtores podem trabalhar para melhorar a qualidade de lotes selecionados e comercializá-los.

Essa estratégia de negócios é usada principalmente em fazendas maiores, como as brasileiras. Os produtores determinam quanto podem investir em cada lote individual com base em seu potencial, minimizando os riscos e ajudando a garantir uma boa margem de lucro.

Além disso, a venda de lotes com potencial menor para o mercado de commodities pode ajudar a criar um fluxo de caixa tranquilo, o que por sua vez pode apoiar a transição para a especialidade.

terreira de café

Natividad, um produtor na região de Santa Bárbara, em Honduras, usa terreiros suspensos para secar seus cafés Pacas e Ocotillo. Crédito: Benjamin Paz

O Poder do Marketing e do Branding

Durante esse período de transição, também é importante comercializar o café. Benjamin me diz que, por muitos anos, a região de Santa Bárbara era desconhecida entre os compradores de especialidade. No entanto, tudo isso mudou quando o Cup of Excellence chegou a Honduras e dois dos produtores com quem ele trabalhou receberam o primeiro prêmio.

Isso transformou o destino não apenas dos produtores, mas também do Beneficio San Vicente. O beneficiamento se tornou um ponto de contato para produtores e compradores que trabalham com café especial. Antes disso, Benjamin e sua família lidavam principalmente com café em pergaminho.

Eventos como o Cup of Excellence elevam os perfis de uma região e do produtor, e conectam produtores a compradores.

Mas não é a única maneira de comercializar um café. Os produtores precisam considerar várias maneiras de se promover, incluindo mídias sociais e participação em eventos. E isso geralmente é mais fácil quando feito em conjunto.

Miguel mudou de café commodity para café especial

Miguel Moreno com seus terreiros suspensos em Santa Bárbara, Honduras. Crédito: Benjamin Paz

Colaboração para Melhorar o Marketing e o Poder de Barganha

Um dos aspectos mais difíceis da comercialização do café e da negociação de contratos com os compradores é o desequilíbrio de poder. Os produtores têm limitações para chegar aos compradores, e geralmente menos conhecimento sobre as normas do setor, como a margem atual pelo café especial, do que os compradores.

Saiba mais! Leia: Defeitos do Café e como Evitá-los: um Guia para o Produtor

Se olharmos com mais atenção as regiões produtoras conhecidas, frequentemente encontramos comunidades inteiras trabalhando juntas. Colaborar com outros produtores para alcançar objetivos comuns pode ser um passo no caminho para melhorar a visibilidade, os recursos e o poder de negociação.

Benjamin me diz que os produtores de Santa Bárbara trabalham tão juntos quanto uma família, e isso os torna mais fortes e com um apoio melhor. É através da cooperação que eles conseguiram obter uma renda estável para uma comunidade em constante crescimento.

Em 2008, havia apenas 14 produtores (incluindo Miguel) vendendo para a Collaborative Coffee Source; hoje, são 270. Hoje eles sabem que a Collaborative Coffee Source, que continua sendo seu maior parceiro comercial, voltará ano após ano e os apoiará na jornada contínua em direção a um café ainda melhor.

Em países como a Colômbia, onde o tamanho médio de uma fazenda de café é de quatro a cinco hectares, fazer parte de uma cooperativa tornou-se uma maneira comum de melhorar a qualidade e facilitar o acesso a compradores especializados.

E em outros lugares, como na Etiópia, as cooperativas são o modelo tradicional para os produtores. Eles testemunham como a colaboração beneficia as comunidades, desde o incentivo a técnicas de produção ecologicamente responsáveis ​​até o uso de lucros para investir em projetos comunitários, como equipamentos de saúde, estradas, linhas de energia e escolas.

produtores de café

Bjørnar Hafslund da Collaborative Coffee Source com a família Moreno. Crédito: Benjamin Paz

Reinvestindo Grandes Lucros na Comunidade

Faz mais de uma década que Benjamin, o Beneficio San Vicente e os produtores próximos iniciaram a transição para a produção de café especial. Na década em que sua comunidade cresceu, novos projetos foram realizados e mais produtores estão tendo um impacto positivo.

Miguel diz que ele foi capaz de melhorar sua qualidade de vida e trazer estabilidade econômica para sua família. Ele e Benjamin me contam sobre os projetos sociais que foram empreendidos: construir uma escola infantil, por exemplo, e iniciar um projeto de reciclagem na comunidade.

Um negócio estável e lucrativo permite ao produtor reinvestir em sua fazenda e em sua comunidade – sabendo que eles podem se dar ao luxo de fazê-lo e que todos sentirão os benefícios.

produtor de café commodity

Um cafeicultor trabalha na estação de lavagem na Finca Chely, El Cielito, Santa Bárbara. Crédito: Henry Wilson

Vender para o mercado de cafés especiais pode trazer grandes benefícios: relacionamentos de longo prazo com compradores que investirão novamente no produtor; oportunidades para inovar e melhorar a qualidade do café; posicionamento de mercado mais forte; renda mais estável e risco reduzido. E o mais importante de tudo: uma melhor qualidade de vida para toda a comunidade.

A transição pode ser desafiadora. Precisa de um planejamento cuidadoso. Também precisa de parceiros que deem apoio, tanto dentro da comunidade produtora quanto fora dela, na forma de compradores.

Mas, quando bem gerenciada, a transição pode trazer grandes recompensas.

Gostou? Leia também: Como Garantir Consistência na Fermentação e Processamento do Café

Traduzido por Ana Paula Rosas.

Nota: Este artigo foi patrocinado por Collaborative Coffee Source.

PDG Brasil

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